Literatura
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Lenine
Robert Service, 2004
Ainda hoje ouvimos falar de marxismo-leninismo, a doutrina
que enforma a orientação política do PCP. Marx e Lenine foram, respectivamente,
o teorista e o praticante máximos do comunismo. Mas se o filósofo alemão já
havia inspirado a revolta parisiense e o pensamento de notáveis como Plekhanov
ou Kautsky, foi Lenine que mais incisiva e obsessivamente se declarou seguidor
máximo da ortodoxia marxista.
O livro de Service é particularmente instrutivo quanto aos factores que poderão
ter estado por detrás da formação revolucionária de Lenine. Os principais serão
a austeridade familiar, a ambição imposta pelo pai e a imitação do irmão
Alexander – que se tornaria um dos protagonistas de uma tentativa de regicídio
falhada e acabaria morto pelo regime czarista. Estudante brilhante (aliás, como
todos os irmãos), Lenine tornar-se-ia também obsessivo na procura de
alternativas ao rígido e decadente sistema político russo.
O líder da Revolução de Outubro era calculista e emotivo (frequentemente
colérico, até), submetia todas as suas acções políticas ao cálculo da sua
utilidade para o fim revolucionário e, por isso, advogava o recurso à violência
contra todos os que – dentro ou fora do seu partido – manifestassem dúvidas em
relação à linha política que estabelecera.
O problema é que o próprio Lenine reformulava e contradizia com frequência
orientações passadas, daí nunca ter sido um líder consensual. O seu punho de
ferro e, talvez mais ainda, a sua concentração a tempo inteiro no objectivo a
que se predispusera foram, segundo o autor, essenciais para que fosse
preponderante no partido. Sem ele, supõe Service, dificilmente teria havido
comunismo na Rússia.
Em mais de 600 páginas, Service – o primeiro historiador que teve acesso aos
arquivos russos após a subida de Ieltsin ao poder – descreve a vida de um homem
cuja fase adulta foi quase inteiramente dedicada à causa revolucionária e cujos
últimos três anos de vida ilustram esse empenho.
Esgotado e acometido por uma doença incurável, Lenine assistiu à ascensão de
Estaline e ao que considerava serem medidas políticas falhadas dos novos
dirigentes. Faleceu com a ideia de que errara ao apontar Estaline como seu
sucessor, mas na verdade – salienta Service – ele próprio havia sido tudo menos
um modelo de governador. Aliás, Lenine criticaria o nacional-chauvinismo de
Estaline, não a sua veia autoritária. Essa não era de todo estranha a Lenine.
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