Literatura
| Poesia
O Sangue Por Um Fio
Sérgio Godinho, 2009
Ainda é possível escrever sobre a morte, ou algo que se
pareça com, sem repetir as mesmas banalidades de sempre, copiadas de um ditado
há muito proferido. O título O Sangue Por Um Fio (Assírio & Alvim,
Setembro de 2009) talvez iluda ao sugerir um trocadilho com a expressão «a vida
por um fio», mas a verdade é que o conteúdo desta recolha, organizado por sete
partes de extensão diversa, confirma as suspeitas que o título lança. Que
outras eventuais suspeitas sejam desfeitas à partida. Sérgio Godinho (n. 1945),
há muito reconhecido como um dos mais consistentes escritores de canções
português, finta as fórmulas da canção nestes poemas, não permitindo quaisquer
confusões que possam eventualmente surgir entre o formato da canção e a forma
do poema. Talvez exista em alguns dos poemas seleccionados, sobretudo nos
iniciais, um esforço de escapatória que, curiosamente, acaba por ser o aspecto menos
atraente desta poesia. Mas esse será mais um problema do leitor e dos seus
preconceitos do que dos poemas em si. Estes afiguram-se-nos elípticos e algo
enigmáticos na viagem que propõem inicialmente. É uma viagem pela vida sem
estar presa à memória, é uma viagem pelas memórias sem estar presa ao passado,
é uma viagem pelas dúvidas que um futuro próximo parece suscitar.
A viagem que se propõe terá
como referência o farol da morte. A morte, ou a proximidade disso a que chamam
morte, pairará não somente como tema, mas sobretudo como motivo para um convite
a embarcar num «barco à deriva já dentro do porto» (p. 9). Os ecos da viagem
servirão de escrutínio para o que agora se pretende balancear: a vida. Temos
então o enigma da vida cifrado nas guerras passadas, algumas ultrapassadas,
outras nem por isso, temo-lo nas ilusões que se foram perdendo pelo caminho e
noutras que vieram substituir aquelas, ilusões que o corpo desilude, que o
tempo faz recordar como alguém que se recoloca defronte a um «pelotão de fuzilamento»:
«A feras de erva mansa / dão-se / peixes de água doce / o isco em dias repetido
/ e de um só passo se atrai / a raiva do desleixo / as ordens são desde aí /
desilusão consumada» (p. 26). Nota-se a ironia desencantada que motiva as
erupções da palavra, chegadas à folha como uma espécie de disparo espontâneo e
imprevisível. Nada nestes poemas permite entrever a consciência amansada
da vida que caracteriza muita da poesia actual, a qual foge aos riscos de se
estar vivo como quem recusa a liberdade que lhe não custou conquistar.
Os poemas de Sérgio Godinho
tentam-nos. Julgamos ser a morte o tema central deste livro. E, de facto, esse
tema paira, do princípio ao fim, com maior ou menor evidência. Mas dentro dele
descobrimos uma lição de se estar vivo, uma interrogação constante, as dúvidas
e as respostas de alguém que não nega a si próprio o gozo das partidas sem fim
determinado: «Nada é mais do que o que fica. / Mas para isso, nada é menos do
que agora» (p. 68). Afinal, o que importa, mais do que perceber o que é isto de
andar por aqui, mais do que pretender ludibriar o que é isso de deixar de andar
por aqui, o que importa é mesmo andar (ir andando também não chega). Estes
poemas não se impõem como recados, parecendo-nos, por vezes, que eles escondem
uma realidade que é fruto da experiência com a manipulação das palavras. Essa
realidade é a de quem se liberta da manipulação da palavra e se deixa manipular
pela força sugestiva dos vocábulos. Deste modo, o poema funciona como sugestão,
não como uma mera confissão ou como um testemunho, não apenas como uma vontade
de dizer algo que não pode ser dito de outra forma, mas como uma experiência de
liberdade na relação com a palavra e seus modos de (des)organização formal.
Balanço ou reflexão, testemunho de resistência ou declaração
de princípios, este livro vale, sobretudo, pela liberdade com que se coloca
defronte ao fim: «O que foi tido por inesperado e imprevisível / talvez seja
apenas a maneira de um todo / se descentrar / fugir à tarefa insanamente por nós
mesmos exigida / à nossa pequena parte, já manchada de sangue, / sangue por
rectas e curvas da coerência. / O sangue por um fio» (do último poema,
intitulado Os órgãos vitais, p. 87). Não deixa de ser curioso que num
tempo em que proliferam livros de memórias aos 30 anos, seja um autor na casa
dos 60 a não se deixar prender ao passado com a nostalgia de quem sente já ter
perdido tudo o que ainda não viveu. O Sangue Por Um Fio não se limita,
pois, a inventariar uma vida aparentemente por um fio. Ele pega nos órgãos
ainda vivos de um corpo presente e faz-lhes um exame anatómico sem preocupações
formais, sem aquele tipo de cuidados exigido pelos corpos enfermos. Uma boa
surpresa, portanto.
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