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«Não há por estes lados nenhuma casa, nem um pedaço de terra, nem uns ossos, dos quais possa dizer: “Isto existia antes de eu nascer”.»

 
   
 Literatura  | Romance

A Lua e as Fogueiras

 Cesare Pavese, 2002

 

 

Último romance de Cesare Pavese, publicado pouco antes do seu suicídio, A Lua e as Fogueiras (1950) é considerado quase unanimemente como o mais belo trabalho do autor italiano. É um livro dual e quase antitético: de uma complexidade simples, de uma profundeza laminar, é passado e presente, é tristeza e esperança, é identidade anónima.


A Lua e as Fogueiras narra o retorno de um homem, conhecido como «Enguia», à sua região natal de Langhe. Ou o que seria a sua região natal se Enguia soubesse onde tinha nascido. Era um orfão, um bastardo, adoptado por uma família paupérrima que o acolheu para receber o subsídio estadual: «ainda que tivessem tomado conta de mim apenas porque o ospedale di Alessandria lhes pagava uma mesada» (pág. 5). Enguia não se sentia diminuído por ser filho de ninguém; na verdade orgulhava-se de «valer cinco liras» (pág. 6) e, agora crescido, maduro e retornado, sabia que «todos os sangues são bons e iguais» (pág. 5). Quando a miséria foi por demais incomportável, mandaram o pequeno Enguia para a Casa da Mora, onde serviu a família de sor Matteo como camponês, «[a]ssim, com os primeiros frios, entrei na Mora» (pág. 73). Até chegar a altura de cumprir o serviço militar, Enguia esteve na Mora servindo sor Matteo, a mulher e as suas três belíssimas filhas: Irene, Sílvia e a pequena Santa. Na Mora conheceu também Nuto, rapaz pouco mais velho que ele, que lhe ensinou quase tudo o que um homem deve aprender na juventude. Nuto tornou-se no seu melhor amigo. Quando cumpria o serviço militar em Génova, Enguia decide fugir para a América, onde permanece emigrado por um período de aproximadamente vinte anos, e de onde volta com alguma fortuna: «Aqui, todos julgam que voltei para comprar uma casa e chamam-me Americano» (pág. 8).


A Lua e as Fogueiras, pela voz de Enguia, narra precisamente o momento em que o homem sem origem volta à sua terra natal. Quase que distraidamente, por vezes despoletado por um cheiro, por vezes por uma tradição, o narrador relata-nos as suas memória de rapaz. A narração do presente é assim entrecortada com analepses que criam a verdadeira origem de Enguia, revelando um fio narrativo duplo e, por vezes, duplicado. Explico: toda a narrativa aparece sob o signo das estações; tudo é cíclico e repetitivo nesta região italiana. «O maravilhoso daqueles tempos é que tudo se fazia de acordo com a estação, e cada estação tinha os seus costumes e as suas diversões, segundo os trabalhos e as colheitas, a chuva e o sol» (pág. 99). Todos os Agostos repetia-se a festa da Madonna, todas as noites de S. João eram estreladas pelas fogueiras que marcavam e adubavam o solo: «Tinha vindo para passar uns quinze dias e topei com a Madonna de Agosto. […] Os mesmos ruídos, o mesmo vinho, as mesmas caras de outros tempos. Os rapazes que corriam por entre as pernas das mulheres  eram os mesmos; os lenços, as parelhas de bois, o perfume, o suor, as meias das mulheres nas suas pernas escuras, eram as mesmas» (pág. 9). E de tal modo os rostos se repetiam que Enguia encontrou numa criança a sua própria imagem da juventude: Cinto. Cinto não era um bastardo mas tinha a sua própria enfermidade: era coxo. Era também pobre e ignorante. Assim, no tempo da narração se duplicam os personagens e os cenários da narrativa da vida passada de Enguia.


Não seria incorrecto identificar este como um livro sobre a busca da origem do homem, mas parece que falta algo a esta conclusão simplista da matéria de que A Lua e as Fogueiras é feito. Se é verdade que Enguia volta ao Langhe para descobrir a sua origem, é também verdade que essa é uma questão que nunca vê respondida. De tal modo que as palavras finais são de Nuto ao relatar a cena em que Santa, a mais bela das filhas de sor Matteo, morre e lhe é dado um destino final ao seu corpo: «Uma mulher como aquela não podia cobrir-se com terra e depois abandoná-la. Ainda despertava o desejo de muitos. […] [L]ançámos fogo. Ao meio-dia era apenas cinza. No ano passado ainda se podia ver a marca, como restos de uma fogueira» (pág. 159). Depois disto, a narrativa pára abruptamente, como se Enguia se apercebesse da inutilidade da sua busca. Ou como se a sua resposta tivesse sido dada pelo destino trágico da bela mulher. Pela falta de resposta, ou pela importância que lhe é retirada pela morte da beleza, A Lua e as Fogueiras não é uma investigação sobre as origens de um homem. Será, talvez, uma provocação à origem e à sua importância; uma redefinição do homem não pelos seus antepassados mas pelo seu único passado. Enguia fez-se homem na América e é precisamente esse o fragmento da sua vida de que menos sabemos. Na sua descida aos Infernos de Langhe, guiado pelo seu Virgílio pessoal (Pavese falava, deste livro, como sendo a sua «modesta Divina Comédia»), Enguia descobre somente que na terra que lhe devia alimentar as raízes não passava, no máximo, de um estrangeiro bem-vindo, um «Americano».


Livro carregado de imagens de potencial lírico extremo, A Lua e as Fogueiras confunde-se, por vezes, com um longo poema narrativo em que, mesmo na tradução portuguesa de Manuel de Seabra, se ouve o cantante da língua italiana. Chega a ser hipnótico o ritmo da prosa que os capítulos curtos tentam quebrar, deixando o leitor num leve transe contemplativo de uma cruel paisagem bucólica transalpina. Todavia, qualificar este livro de lírico seria, para além de errado, perigoso: seria despir de Nuto toda a sapiência e força, de Cinto toda a esperança, e de Santa, personagem quase ausente durante a maior parte da narração, aquela indizível qualidade encantatória que só as mulheres belas e tempestuosas possuem. Logo, A Lua e as Fogueiras é um romance, de pleno direito no modo narrativo, sem deixar de ser levemente pintado pela lírica inerente à lua e ao fogo, e aos montes e à neve, e ao trabalho justo e à riqueza, e à paixão e ao belo e à morte, e, no fundo, à Itália. A Lua e as Fogueiras marca, como os restos da fogueira marcam o solo, tornando-o fecundo, e é uma obra-prima na bibliografia de Cesare Pavese e da literatura mundial.

 
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