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«Certa manhã Profane acordou cedo, não conseguiu voltar a adormecer e decidiu, num capricho, passar o dia como um ioiô»

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apontadorEstá a chegar o romance de mistério do enigmático Pynchon

 
   
 Literatura  | Romance

V.

 Thomas Pynchon, 2000

 

 

V. (1961) é o primeiro romance de Thomas Pynchon, autor mais falado pela sua fobia a exposição pública do que pelo carácter dos seus trabalhos literários. É muito provável que o primeiro contacto dos leitores com a obra de Pynchon tenha sido ao ouvir falar num autor mistério, de que não há mais do que uma ou duas fotografias da adolescência, em vez de ligado a obras como V., The Crying of Lot 49 ou Gravity's Rainbow, os seus mais reconhecidos livros. A atitude reclusa de Pynchon pode ser tão benigna como destrutiva para a sua obra literária: por um lado a leitura dos seus textos é livre de qualquer interferência com a vida do autor; por outro lado, o pouco que dele se sabe é explorado ao limite. Os seus livros são sempre apresentados como «de Thomas Pynchon, autor mistério». Para exemplo, vide o primeiro parágrafo deste texto.

 

Falemos de V., então. Nada mais fácil do que uma sinopse, nada mais difícil do que uma sinopse de Pynchon. V. acompanha parcialmente as deambulações de Benny Profane, ex-marinheiro, no seu retorno à vida civil. Profane não é apenas um homem qualquer. Ou antes, não passa de um qualquer: define-se a si próprio como um «schlemihl», termo iídiche que designa «um indivíduo azarado, inepto, simplório» (N. do T., p. 17). Na sua condição de schlemihl, Profane permite-se todo o tipo de trabalhos de vagabundagem. Criou o seu próprio desporto, o yoyoing, que consiste em andar de metro, de uma ponta à outra da linha, bêbado, durante o maior espaço de tempo possível. Faz todos os trabalhos de baixo nível que consegue: desde caçador de crocodilos nos esgotos de Nova Iorque até guarda nocturno numa empresa de robótica. Para além dos seus amigos da marinha, Pig Bodine e Pappy Hod, Profane passa grande parte do tempo com um grupo de pseudo-artistas boémios conhecido como «Toda a Tripulação Doente» (p. 52). Com a Tripulação encontra-se também Stencil, um homem de meia idade que passou toda a vida em busca de uma entidade que é apenas conhecida como V., referida inúmeras vezes no diário do seu pai. É na demanda de V. que a narrativa se centra quando relata os factos históricos referidos pelo pai de Stencil e é, em última análise, para o encalço de V. que o pobre schlemihl se vê arrastado.

 

V. é muitas vezes visto como um conjunto de duas sequências narrativas que progressivamente se vão aproximando para finalmente se juntarem no final do livro, reproduzindo em si a forma da letra V. Há, no entanto, algo de frágil nesta interpretação da obra (ainda que não deixe de ser uma visão interessante): é que as duas sequências (que pouco sequenciais são) não se juntam no final: apenas vão partilhando uns quantos pontos de intersecção. Salvato Telles de Menezes, no prefácio, encara a estrutura de V. mais próxima de «um complexo puzzle em que muitas das peças não encaixam» (p. 10). De facto, é nessa sensação, de um puzzle incompleto, que se viram as últimas páginas do livro. Todavia, é quase como se a imagem que está desaparecida não fizesse falta. A própria ausência de uma peça é a peça que falta a V. e a essência da narração. A demanda de V. torna-se um oxímoro: uma busca falhada de sucesso.

 

A inicial V. pode dizer respeito a um sem número de coisas: um nome de código para a Venezuela, um nome de código para o lugar de Vheissu, a cidade de La Valleta, capital de Malta, a inicial de várias mulheres, Victoria, Vera, Veronica (ou, supõe-se, da mesma, com vários nomes), ou até de um rato chamado Veronica. O mais provável é que diga respeito a tudo isto e a nada disto. Principalmente para Stencil – e por extensão para o leitor – V. ganhou tal dimensão que já não se pergunta quem é V. mas o que é. V. é a identidade sem objecto, da mesma forma que Profane é o homem sem identidade – talvez por isso os dois figurem neste livro.

 

Mas V. não trata da busca pela busca, não é uma alegoria para a personalidade como definição do homem (ou não o é apenas). É um quebra-cabeças gigante, uma narrativa que não se adequa tanto ao mundo real como ao dos sonhos, como disse o crítico da Time na altura do lançamento do livro: «it makes a powerful, deeply disturbing dream sense».


É um livro poderoso que não se fica na última página. Talvez por não apresentar respostas definitivas, a busca de V. perdura muito para lá do final da narrativa. Pynchon sente um gozo especial em destruir o sentido de orientação dos seus leitores, em destruir-lhes as barreiras habituais e a lançá-los num perigoso mar de incoerência e dúvida. E sabe muito bem andar à deriva neste brilhante livro.

 
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