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 Literatura  |

A Morte da Utopia

 John Gray, 2008

 

 

«O mundo em que nos encontramos no início do novo milénio está cheio de detritos de projectos utópicos que, embora enquadrados em termos seculares que negavam a verdade da religião, foram, de facto, veículos de mitos religiosos». Que projectos? Comunismo e fascismo, pensará o leitor. Neoliberalismo e neoconservadorismo, acrescenta Gray. Ao contrário de Eric Hobsbawm, que encontrou naqueles dois movimentos políticos radicais uma metáfora do milenarismo (doutrina do Apocalipse que anuncia a vinda de Jesus Cristo e um seu reino de mil anos), o autor deste livro diz que são uma consequência dele, na medida em que veiculam mitos apocalípticos.

 

A influência de Carl Becker nesta obra de Gray é óbvia: reportando-se ao Iluminismo, o historiador escreveu que a noção de que a vida é um drama estava de tal modo enraizada no século XIX que os filósofos não tinham como a negar, nem o pretendiam. À influência cultural judaico-cristã aliou-se o advento da ciência, fortalecendo a ideia de História como processo cumulativo. No final, um apocalipse (o termo original não significa catástrofe, mas revelação no final de um processo). Os iluministas pretendiam, portanto, recorrer à ciência para abolir os defeitos do Homem, aperfeiçoá-lo. Natureza e História? Esqueça-se isso, porque até à chegada da ciência o Homem era reinado pela ignorância.

 

Entrámos então numa nova fase evolutiva da humanidade: a Razão substitui o transcendente e o erro causado pelo desconhecimento dá lugar à verdade, cientificamente encontrada. Assim como podemos calcular o movimento dos astros, também o estudo da sociedade e da sua organização política poderá ser rigoroso. O resultado começa a entrever-se. Nas palavras de Isaiah Berlin, «todas as Utopias nossas conhecidas baseiam-se na possibilidade de descoberta e na harmonia de fins objectivamente verdadeiros, verdadeiros para todos os homens, em todos os tempos e lugares».

 

Mas se a certeza de que o Homem poderia ser aperfeiçoado, por si só, não conduz a resultados práticos catastróficos, foi preciso surgir o jacobinismo para que se concebesse o terror como meio para alcançar o fim majestoso. A vaga purificadora da Revolução Francesa, que até Robespierre ceifou, foi um exemplo metodológico para comunistas e fascistas. Por exemplo, na Rússia czarista houve 14 mil execuções de 1866 a 1917; na URSS foram 200 mil de 1917 a 1923. Nas palavras de Gray, o fundo milenar do comunismo está em que «se alimenta de mitos que não podem ser refutados. […] Os bolchevistas acreditavam que o novo mundo só poderia passar a existir depois da destruição do velho».

 

Mas se os meios sanguinários utilizados não divergem significativamente entre extrema-esquerda e extrema-direita, há uma distinção de fundo que foi encontrada por Hannah Arendt: o comunismo é uma versão radical do ideal de igualdade e o nazismo pura e simplesmente condena uma parte da humanidade à morte. Este aponta as raças inferiores e procura livrar-se delas; aquele renega todos aqueles que discordem do plano racional de base.

 

Quanto ao neoliberalismo, entende Gray que o entendimento pós-Guerra Fria (quem não ouviu já falar do fim da História de Fukuyama?) de que a economia de mercado sem freios triunfaria é, ela mesma, uma forma de milenarismo. Já o neoconservadorismo, aplicado pela dupla George W. Bush e Dick Cheney, em nada tem que ver com o conservadorismo – este é pessimista, tradicionalista, preza os avanços civilizacionais locais, não é internacionalista; aquele é optimista, progressista, expansionista e milenarista. Este dito de Bush a Mahmoud Abbas em 2003 ilustra a diferença: «Deus disse-me que atacasse a al-Qaida e ataquei-a; depois deu-me instruções para atacar Saddam, coisa que fiz».

 

Escrito por um conservador britânico, A Morte da Utopia é a prova de uma enorme abertura mental do seu autor. Para além das referidas correntes de pensamento, também o próprio conservadorismo é machadado por John Gray neste livro. A tese de que o neoconservadorismo norte-americano foi beber ao Iluminismo é inovadora e as raízes religiosas das ideologias radicais não são novidade. No final de contas, a fluidez do texto e vários dos argumentos lá expostos compensam o investimento.

 
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