Música
| EP
You
Minta, 2008
Éramos capazes de jurar que não, senhor, não é possível. Jamais uma menina de camisola verde,
franja e braços esguios e mão delicada sobre as cordas de uma guitarra tocada
sobre o fundo casual de uma cozinha – fogão, máquina de lavar, balde do lixo. Jamais uma menina de camisola verde! Num
primeiro momento é apenas nesta imagem da contracapa de You que nos detemos (ver coluna), tentando fazer com que as peças batam certo:
não há sinal de que aqueles olhos baixos escondam esta voz.
A primeira volta a este EP é só mesmo para alimentar a
surpresa. (Antes disso, chegámos mesmo a retirar a rodela do leitor, para nos
certificarmos de que a verdade não seria outra.) Quase obliterando por completo
o instrumental, a melodia encorpada e tão, mas tão segura de Francisca Cortesão
balanceou-nos entre o espanto, a incredulidade e um gozo de descoberta que
convém não eclipsar. Um gozo de criança, mesmo. Afinal, nestas andanças dos
pequenos registos de estreia não temos por hábito encontrar gente que saiba tão
bem o que fazer com a voz – contabilizando interpretação, contracena, confiança
e silêncios.
Óptimo. Nem mesmo vasculhando pela nota que acompanhava o
disco somos abalados nesta convicção: «as músicas foram trabalhadas pelo Nuno
Rafael, que passou uns dias no estúdio com a Francisca para gravar (…)
sobretudo uma lista interminável de pistas de voz». Como se o facto pudesse humildemente menorizar o brilhante
trabalho final conseguido em You. Não. O resultado é diverso: se ainda aqui vamos sem ouvir nada do que canta
Francisca Cortesão, sem olhar sequer os títulos das canções, é porque estamos
rendidos – e poderíamos dizer apaixonados, sem pruridos. Vamos mais longe:
vamos mesmo ao mel como metáfora caracterizadora tanto do corpo como da
textura desta voz.
Claro que temos que pôr um travão nisto. Há um momento em
que racionalizamos tudo, fatalmente. Francisca Cortesão não tem uma
voz-instrumento-de-música. Mas também não levamos a nossa frustração dos dias a
tal ponto que pedimos a cada pedra da calçada a genialidade (Amália, Piaf). Não somos pobres e mal agradecidos, portanto.
É-nos, no entanto, inevitável começar a sistematizar e a desenrolar nomes de songwriters que assinam no feminino e é
ainda inevitável surgirem à cabeça nomes como Feist, Cat Power, Aimee Mann. (É
inevitável… é inevitável para os tempos que correm.) Depressa nos desagrada o
exercício.
Temos por cá que um bom punhado de canções tem a sua
qualidade e degustação garantidas, quer seja ouvido dentro ou fora de certa
corrente artística, com ou sem enquadramento, isto é. Assim acontece com Minta. A simplicidade de A song to celebrate our
love é tão sedutora quanto é melancólica The booze. Temos nestes dois temas uma das melhores entradas
ouvidas nos últimos tempos – consistente, íntegra, persistente, outonal. Os adornos
dão lugar à naturalidade e quase nem damos pelos arranjos, que se articulam numa
espécie de círculo de fogo, do crepitar que tem por boa norma acompanhar os
verdadeiros contadores de estórias (nem sabemos que os ouvimos).
Scared for you está apenas um degrau abaixo disto tudo e já nos ressentimos. Search skin deep desce outro. Embora isto
não signifique qualquer aproximação à mediocridade dos comuns – de forma
absolutamente nenhuma. E a última das propostas, Are you going to make me sorry?, não nos afasta deste novo patamar
das coisas (da construção de canções). O que nos obriga a um amargo de boca:
aplaudimos a destreza à entrada, a sedução, o engate; mas a paixão não se
compadece com dias de menor intensidade. Mesmo o amor só se permite a existir tão
alto lá em cima que um pequeno desnível não lhe afecta o equilíbrio. Subamos,
então.
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