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Nectário de Francisca Cortesão

Francisca Cortesão (foto de Vera Marmelo) começou a compor. Sozinha e em casa gravou as canções e disponibilizou-as na Internet. Era a Chica. Minta chegou mais tarde e acompanha o processo de dois anos de trabalho que afinaram as canções até ao resultado final, apresentado em You.

 

 

O EP chega ao público em Fevereiro de 2009, em edição de autor, já depois de um primeiro lançamento, em Outubro de 2008, com a chancela da MSounds, que entretanto se desvinculou do projecto. Minta conta ainda com os «mui distintos» convidados Filipe Pacheco na guitarra, João Vilão na bateria e Nuno Rafael, o produtor. A masterização é de Nelson Carvalho. A distribuição está a cargo da Compact Records.

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 Música  | EP

You

 Minta, 2008

 

 

Éramos capazes de jurar que não, senhor, não é possível. Jamais uma menina de camisola verde, franja e braços esguios e mão delicada sobre as cordas de uma guitarra tocada sobre o fundo casual de uma cozinha – fogão, máquina de lavar, balde do lixo. Jamais uma menina de camisola verde! Num primeiro momento é apenas nesta imagem da contracapa de You que nos detemos (ver coluna), tentando fazer com que as peças batam certo: não há sinal de que aqueles olhos baixos escondam esta voz.

 

A primeira volta a este EP é só mesmo para alimentar a surpresa. (Antes disso, chegámos mesmo a retirar a rodela do leitor, para nos certificarmos de que a verdade não seria outra.) Quase obliterando por completo o instrumental, a melodia encorpada e tão, mas tão segura de Francisca Cortesão balanceou-nos entre o espanto, a incredulidade e um gozo de descoberta que convém não eclipsar. Um gozo de criança, mesmo. Afinal, nestas andanças dos pequenos registos de estreia não temos por hábito encontrar gente que saiba tão bem o que fazer com a voz – contabilizando interpretação, contracena, confiança e silêncios.

 

Óptimo. Nem mesmo vasculhando pela nota que acompanhava o disco somos abalados nesta convicção: «as músicas foram trabalhadas pelo Nuno Rafael, que passou uns dias no estúdio com a Francisca para gravar (…) sobretudo uma lista interminável de pistas de voz». Como se o facto pudesse humildemente menorizar o brilhante trabalho final conseguido em You. Não. O resultado é diverso: se ainda aqui vamos sem ouvir nada do que canta Francisca Cortesão, sem olhar sequer os títulos das canções, é porque estamos rendidos – e poderíamos dizer apaixonados, sem pruridos. Vamos mais longe: vamos mesmo ao mel como metáfora caracterizadora tanto do corpo como da textura desta voz.

 

Claro que temos que pôr um travão nisto. Há um momento em que racionalizamos tudo, fatalmente. Francisca Cortesão não tem uma voz-instrumento-de-música. Mas também não levamos a nossa frustração dos dias a tal ponto que pedimos a cada pedra da calçada a genialidade (Amália, Piaf). Não somos pobres e mal agradecidos, portanto. É-nos, no entanto, inevitável começar a sistematizar e a desenrolar nomes de songwriters que assinam no feminino e é ainda inevitável surgirem à cabeça nomes como Feist, Cat Power, Aimee Mann. (É inevitável… é inevitável para os tempos que correm.) Depressa nos desagrada o exercício.

 

Temos por cá que um bom punhado de canções tem a sua qualidade e degustação garantidas, quer seja ouvido dentro ou fora de certa corrente artística, com ou sem enquadramento, isto é. Assim acontece com Minta. A simplicidade de A song to celebrate our love é tão sedutora quanto é melancólica The booze. Temos nestes dois temas uma das melhores entradas ouvidas nos últimos tempos – consistente, íntegra, persistente, outonal. Os adornos dão lugar à naturalidade e quase nem damos pelos arranjos, que se articulam numa espécie de círculo de fogo, do crepitar que tem por boa norma acompanhar os verdadeiros contadores de estórias (nem sabemos que os ouvimos).

 

Scared for you está apenas um degrau abaixo disto tudo e já nos ressentimos. Search skin deep desce outro. Embora isto não signifique qualquer aproximação à mediocridade dos comuns – de forma absolutamente nenhuma. E a última das propostas, Are you going to make me sorry?, não nos afasta deste novo patamar das coisas (da construção de canções). O que nos obriga a um amargo de boca: aplaudimos a destreza à entrada, a sedução, o engate; mas a paixão não se compadece com dias de menor intensidade. Mesmo o amor só se permite a existir tão alto lá em cima que um pequeno desnível não lhe afecta o equilíbrio. Subamos, então.

 

 

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