Música
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Noble Beast
Andrew Bird, 2009
Quando chegar a Primavera, já estaremos preparados. As melodias já estão na cabeça e, com uma ida ao jardim, ao campo, ou até à rua – se não for daquelas cinzentas – o cenário completa-se.
Peguem no Noble Beast, o novo de Andrew Bird, e ponham a tocar. Vão começar a ouvir Oh no, um tema que começou, «como quase todas as canções» de Bird, com um som. E tem uma história por trás: um menino de três anos chorava num avião, no mesmo em que Andrew estava, e dizia, com desespero «Oh no». Estava completamente «inconsolável», conta Bird, na sua crónica para o Measure for Measure, blogue do New York Times, em Março de 2008.
Um tema triste, numa música com melodia bastante alegre. Mas é deste contraste que Andrew gosta: «salientar um sentimento pelo seu contraste», explicou ao Ípsilon. Aliás, o refrão da música («Arm in arm with all the harmless sociopaths/ arm in arm with all the harmless sociopaths») tem um conceito bastante áspero: «É como quem diz: Às vezes sinto-me tão bloqueado emocionalmente que sou como um sociopata, só que sou um daqueles que não mata pessoas» (Ípsilon).
Mas nem só de «sociopatas inofensivos» vive este álbum. Seguimos viagem e encontramos mundos que só Andrew Bird sabe onde se situam e de que são feitos. É o seu imaginário não-inteligível. A ideia é sermos guiados pelas emoções. Por várias vezes, somos confrontados com expressões que não sabemos o significado, ou não percebemos, racionalmente, o que estão ali a fazer.
Isso acontece porque Andrew segue os instintos: se uma palavra soar bem, e tive de ser incluída, vai ser. Mesmo que, muitas vezes, ele não saiba o seu significado – mas isso faz parte da diversão: «Muitas vezes, começo por uma interrogação. Uma palavra desperta-me o interesse, gosto do modo como soa, mas desconheço-lhe o significado. E, durante algum tempo, não ligo a isso. Depois, sou capaz de perguntar a amigos o que ela quer dizer. O que conduz a conversas bastante mais interessantes do que o que, de facto, se encontra no dicionário», conta ao A.V. Club, citado por João Lisboa.
Todo este universo imaginário e críptico é um provável fruto de quem passa muito tempo sozinho: «When one has spent too much time alone», como nos conta em Effigy.
Já há uns anos que Andrew Bird se mudou para um celeiro adaptado na parte rural do estado Illinois. Questionado pela Uncut se estava à procura de um «som pastoral», Bird explica que, antes de fazer este álbum, sentou-se e perguntou a si mesmo o que é que ele quereria ouvir, o que é que fazia falta se ele fosse a uma loja de música, e foi aí que decidiu trabalhar com mais instrumentos acústicos, para conseguir um som mais vívido. Queria, sim, que o tal «som pastoral» soasse à sua quinta, onde «a Primavera nasce debaixo de uma árvore».
Noble Beast sublinha o génio que é Andrew Bird. E traz um bónus: um segundo CD, Useless Creatures, da edição deluxe, onde figuram canções mais extensas, muitas só instrumentais. Em Bird é sempre uma nova aventura descobrir as facetas que se desdobram entre si, as camadas de palavras, as cordas do violino. E mal podemos esperar para vê-lo ao vivo, onde as músicas se reinventam, ganham outras vidas. Isso é a Primavera pela qual esperamos.
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