Cinema
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Go go tales
Abel Ferrara, 2007
«Olha mas não toques».
É a frase mais que repetida ao longo do filme e uma boa deixa para começar a
explicá-lo. Go go tales é uma longa-metragem que nos enche o olho de planos
bem conseguidos, estética e mulheres esculturais contudo, o argumento, não nos
toca.
Já não víamos a vida nocturna tão bem filmada desde Colateral,
de Michael Mann. Abel Ferrara é irrepreensível na forma como dirige a imagem de Go go tales, onde a acção é completamente centrada num bar de «go-go dancing», em Manhattan, mas do qual nunca nos cansamos. A ideia é pôr-nos na cadeira, numa espécie
de big brother is watching em tons
escuros, atravessado por luzes de néon azuis e brancas. O vermelho já é um
cliché e estamos em Manhattan, meus senhores, no bar de Ray Ruby (Willem Dafoe),
um sonho trabalhado durante toda a sua vida. «Welcome to Paradise Lounge», não se cansa de dizer o protagonista, no seu
papel de apresentador de cabaret, que
canta, dança e gere, mas que não consegue viver sem uma coisa: jogar na
lotaria. Um papel extremamente bem desempenhado pela excentricidade a que Dafoe
já nos habituou.
A acção divide-se pelos compartimentos do Paradise Lounge e durante grande parte do tempo, diferentes temas
de conversa ficam circunscritos a estas divisões. Nos camarins as meninas
discutem a falta de pagamento que se prolonga há alguns dias, entre meias de
rede que tiram, perucas que encaixam, plumas que enrolam nos corpos quase
despidos e fatos plastificados. Ainda sem terminar a conversa, passam a porta e
começam a dançar, perdidas entre a sua arte e o pensamento, de olhos vazios e
corpos presentes. «Olhem mas não toquem».
Ray Ruby apresenta as beldades como as mais preciosas,
vindas do todo o mundo mas, sempre que pode, foge para o escritório do clube,
onde está também o gestor Jay (Roy Dotrice), a sala que suporta toda a sua
ambição. Onde sonha com dinheiro e mais dinheiro, onde não consegue dormir só
para sonhar acordado. Onde faz planos para poder engrandecer o seu palácio de
sonhos. Onde nos desvenda um plano infalível que montou ao longo da toda a sua
vida para ganhar o prémio milionário da lotaria americana. No bar do clube
instala-se a paródia, que nos proporciona os momentos mais hilariantes do filme.
Diferentes personagens, tão noctívagas, iniciam as mais alucinantes discussões.
O irmão cabeleireiro e sócio desinteressado, os habituais frequentadores e amigos
da casa, a velha esquizofrénica (senhoria do espaço) e o baron, o sócio número dois, o grande Bob Hoskins, que voltou a provar o quão bem assenta nestes
ambientes, aos quais nos habituou desde Quem
tramou Roger Rabbit? Restam as salas de Peep
show, onde as meninas, cheias de sonhos e esperança numa carreira artística
futura sem ‘o ter que tirar a roupa’, aproveitam a presença de figuras
poderosas da sociedade nova-iorquina, utilizando a sedução para tentar a sua
sorte.
É bem no
final que as histórias começam a misturar-se. As paredes são ‘derrubadas’ e as personagens entram sem medo nos vários
compartimentos do Paradise Longue. Um
demorado caminho que Abel Ferrara traçou até ao final do filme. Um caos gerado para nos entregar, por fim,
a parte mais brilhante de todo o filme, o sumo mais concentrado de todo o
trabalho de guionismo. Talvez uma propositada brincadeira de Ferrara, que
por fim nos toca mas foge.
Sítio Oficial | IMDb
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