Cinema
| Drama
Momma's Man
Azazel Jacobs, 2008
Nova Iorque. Último andar de um edifício cansado e tosco na TriBeCa – zona industrial de Manhattan, que depois de uma tremenda revitalização
transformou os predominantes armazéns em apartamentos loft, e que hoje é uma
das zonas mais caras da Big Apple – que acolhe o Tribeca Film Festival e é
recorrentemente cenário de filmes (Gostbusters, 1984). Aqui cresceu um pequeno
aspirante a cineasta criado na anarquia doméstica e artística de um pai
realizador experimental, Ken Jacobs, e a colaboradora-mulher Florence.
Mas esta é a história de Azazel Jacobs. O filme acontece na mesma casa, com os mesmos pais, mas a personagem principal chama-se Mikey e é um homem angustiado.

Semi-autobiográfico, é no apartamento nova-iorquino lapidado pelo tempo e com recordações como alicerces que se desenrola a história de um trintão desajustado que transforma uma simples visita à casa dos pais numa viagem ao passado. Usando e abusando do cenário, o bizarro e deliciosamente
anárquico loft apresenta-se-nos sombrio, intrigante mas ao mesmo tempo familiar, doméstico, pessoal. Milhares de objectos pousados preguiçosamente sobre milhares de outros. Um universo de tralha, fios eléctricos, relógios parados, tralha, mochilas,
bonecos partidos, mais tralha. Tralha espalhada pela sala, tralha empilhada na
cozinha, tralha em forma de corredor. Muita tralha e pouca mobília, porque
nem as camas têm estrado, nem os quartos têm divisões.
Mikey está em na casa que o viu crescer mas sente-se diferente. Na hora de regressar para a mulher e filha que deixou
na Califórnia, o conforto do colo da mãe chama com mais força e senta-o de volta na mesa de madeira velha da sala. Há esparguete para o jantar. Sob pretexto de ter perdido o voo Mikey anuncia o prolongamento da estadia. Os planos de Jacobs são perfeitos e dão a entender o desnorte de Mikey que tão pouco percebe porquê, só sabe que tem de ficar ali.
De regresso
ao quarto de infância – uma espécie de anexo-beliche empilhado no monte de
tralha, junto ao tecto –, Mikey entra em crise existencial. Começa a
recuar no tempo, a escavar aventuras na memória, a sacudir a poeira dos antigos brinquedos, livros de BD,
bonecos de corda, cadernos de músicas, a velha guitarra, uma carta
da ex-namorada. Brigitte. As horas passam e as memórias entranham-se. Passa um
dia, passam dois, as desculpas avolumam-se com a vontade de ficar, voltar,
parar o tempo. O comportamento de Mikey começa a levantar suspeitas e a roçar o
patológico, ao ponto de num ataque de agorafobia expontânea não conseguir mesmo sair de casa. Em agonia abraça
as mãos enrugadas da mãe – Isn’t it hard to watch your parents grow old? –, escuta
as palavras gastas – Can I get you something? Tea? Soup? Maybe some cereals? –, percebe que nada parece fazer qualquer sentido.

Azazel Jacobs esteve esta semana na apresentação de Momma’s
Man no Festival Indie Lisboa. O realizador que se aventurou a dirigir os próprios
pais confessou que pouco da personalidade deles foi alterada, e que a parte
mais difícil foi mesmo chamarem Mikey ao filho na tela, o actor Matt
Boren. Já o nome justifica-o pela ambiguidade:«É infantil e adulto ao mesmo tempo»,
explicou Azazel. Sobre a casa o realizador confessa ter sido a
inspiração primordial para a obra, que mesmo apesar do caos e embaraço que possa provocar considera «fantástica!» E acrescenta: «Se tivesse um
trabalho para a escola e pedisse ajuda em casa, de repente apareciam com
facilidade uma dúzia de livros sobre o assunto. Quando comecei a pensar fazer cinema, aconteceu a mesma coisa – de repente tinha uma super-8 e carradas de câmaras à mão
para usar!»
Quase no final imagens ao estilo vídeo
caseiro trazem o clímax emocional do filme e deixam a pergunta no ar. «Sou mesmo eu» – esclareceu Azazel – «retirei as imagens de um filme antigo do
meu pai». Mais familiar impossível. Na bizarria da rodagem de Momma’s Man, o
realizador, que tem Buñuel como uma das maiores referências cinematográficas – «those
movies remind you what you can do» – chegou a sofrer de uma paralisia temporária.
«Estava a viver a minha vida em múltiplas dimensões naquela altura.» Não podíamos ficar mais certos disso.
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