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E se um dia corresse para o quarto de infância, trancasse a porta ao mundo e fosse adolescente para sempre?

 

O filme integra a secção Competição Interncional do Festival IndieLisboa [ver blogue especial], a decorrer até ao dia 4 de Maio. FQ, 01.05.08

 
   
 Cinema  | Drama

Momma's Man

 Azazel Jacobs, 2008

 

 

Nova Iorque. Último andar de um edifício cansado e tosco na TriBeCa – zona industrial de Manhattan, que depois de uma tremenda revitalização transformou os predominantes armazéns em apartamentos loft, e que hoje é uma das zonas mais caras da Big Apple – que acolhe o Tribeca Film Festival e é recorrentemente cenário de filmes (Gostbusters, 1984). Aqui cresceu um pequeno aspirante a cineasta criado na anarquia doméstica e artística de um pai realizador experimental, Ken Jacobs, e a colaboradora-mulher Florence. Mas esta é a história de Azazel Jacobs. O filme acontece na mesma casa, com os mesmos pais, mas a personagem principal chama-se Mikey e é um homem angustiado.

 

 

Semi-autobiográfico, é no apartamento nova-iorquino lapidado pelo tempo e com recordações como alicerces que se desenrola a história de um trintão desajustado que transforma uma simples visita à casa dos pais numa viagem ao passado. Usando e abusando do cenário, o bizarro e deliciosamente anárquico loft apresenta-se-nos sombrio, intrigante mas ao mesmo tempo familiar, doméstico, pessoal. Milhares de objectos pousados preguiçosamente sobre milhares de outros. Um universo de tralha, fios eléctricos, relógios parados, tralha, mochilas, bonecos partidos, mais tralha. Tralha espalhada pela sala, tralha empilhada na cozinha, tralha em forma de corredor. Muita tralha e pouca mobília, porque nem as camas têm estrado, nem os quartos têm divisões.

 

Mikey está em na casa que o viu crescer mas sente-se diferente. Na hora de regressar para a mulher e filha que deixou na Califórnia, o conforto do colo da mãe chama com mais força e senta-o de volta na mesa de madeira velha da sala. Há esparguete para o jantar. Sob pretexto de ter perdido o voo Mikey anuncia o prolongamento da estadia. Os planos de Jacobs são perfeitos e dão a entender o desnorte de Mikey que tão pouco percebe porquê, só sabe que tem de ficar ali.

 

De regresso ao quarto de infância – uma espécie de anexo-beliche empilhado no monte de tralha, junto ao tecto , Mikey entra em crise existencial. Começa a recuar no tempo, a escavar aventuras na memória, a sacudir a poeira dos antigos brinquedos, livros de BD, bonecos de corda, cadernos de músicas, a velha guitarra, uma carta da ex-namorada. Brigitte. As horas passam e as memórias entranham-se. Passa um dia, passam dois, as desculpas avolumam-se com a vontade de ficar, voltar, parar o tempo. O comportamento de Mikey começa a levantar suspeitas e a roçar o patológico, ao ponto de num ataque de agorafobia expontânea não conseguir mesmo sair de casa. Em agonia abraça as mãos enrugadas da mãe Isn’t it hard to watch your parents grow old? , escuta as palavras gastas Can I get you something? Tea? Soup? Maybe some cereals? , percebe que nada parece fazer qualquer sentido.

 

 

Azazel Jacobs esteve esta semana na apresentação de Momma’s Man no Festival Indie Lisboa. O realizador que se aventurou a dirigir os próprios pais confessou que pouco da personalidade deles foi alterada, e que a parte mais difícil foi mesmo chamarem Mikey ao filho na tela, o actor Matt Boren. Já o nome justifica-o pela ambiguidade:«É infantil e adulto ao mesmo tempo», explicou Azazel. Sobre a casa o realizador confessa ter sido a inspiração primordial para a obra, que mesmo apesar do caos e embaraço que possa provocar considera «fantástica!» E acrescenta: «Se tivesse um trabalho para a escola e pedisse ajuda em casa, de repente apareciam com facilidade uma dúzia de livros sobre o assunto. Quando comecei a pensar fazer cinema, aconteceu a mesma coisa – de repente tinha uma super-8 e carradas de câmaras à mão para usar!»

 

Quase no final imagens ao estilo vídeo caseiro trazem o clímax emocional do filme e deixam a pergunta no ar. «Sou mesmo eu» – esclareceu Azazel – «retirei as imagens de um filme antigo do meu pai». Mais familiar impossível. Na bizarria da rodagem de Momma’s Man, o realizador, que tem Buñuel como uma das maiores referências cinematográficas – «those movies remind you what you can do» – chegou a sofrer de uma paralisia temporária. «Estava a viver a minha vida em múltiplas dimensões naquela altura.» Não podíamos ficar mais certos disso.


Sítio Oficial | IMDb

 
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