Cinema
| Drama
Pink
Alexander Voulgaris, 2007
Pink: «any
of a group of colors reddish in hue, of medium to high lightness, and of low to
moderate saturation», é a definição que encontramos num dicionário on-line de
fácil acesso.
Pink,
o filme, pode ser explicado da mesma forma, se trocarmos as cores por
personagens que encarnam o medo que por vezes nos impede de realizar os sonhos,
se olharmos as variações em emoções inerentes à passagem para a idade adulta. «É um estado de alma», disse Alexander
Voulgaris, a 29 de Abril de 2008, ao auditório do Indie que acabava de ver
e aplaudir o seu filme. Realizador e mentor absoluto de Vassilis Galis, personagem principal do filme, que criou e ergueu
até ao fim, através da representação. «Foi uma atitude um pouco egocêntrica mas
achei que devia ser eu a representá-lo porque o filme estava completamente
dentro da minha cabeça e achei que só eu é que o ia conseguir figurar», explica.

Vassilis Galis é um rapaz normal que vive as
contradições de qualquer fase de crescimento. Atravessa o filme na orbita de todos
os personagens, numa espécie de balancé entre o voyeur e figura participante na história. Ora criança ora quase
adulto. Entre a infeliz professora primária e Emily, uma mulher escocesa pela
qual se apaixonou numa passagem de ano em Berlim. Entre a
figura da mãe, que o abandonou ainda criança, e que agora se transformou em
papel e desabafos, nas inúmeras cartas que lhe escreve.
Vassilis Galis é criança/adulto sempre escreveu livros, compôs música e que, no presente, durante o
processo de realização de um documentário sobre novos talentos da música grega, conhece Snezana, a filha de 11 anos de imigrantes ucranianos, o pêndulo que
o hipnotiza e com a qual não consegue deixar de passar grande parte do seu
tempo. «Não pretendia que ela fosse uma espécie de Lolita, é apenas uma relação
ingénua onde ele encontra entendimento para o lado dele que ainda quer ser
criança».

O jovem cineasta grego é sem
dúvida adepto da captura de imagens do quotidiano, do ritmo diário, da
omnipresença. Através deles, espelha o desalento da nova geração de futuros
adultos gregos, a sua ansiedade em relação a si e ao seu futuro. Quando lhe
perguntamos quais as suas influências, não restam dúvidas na análise ao seu
trabalho: «todo o cinema americano dos anos 70, Kubrick, Polanski e Cronenberg, claro».
Pink é claramente
um minucioso trabalho pessoal de Voulgaris, que lhe deu a universalidade de um
bom mito. A história é muitas vezes memoranda de um sórdido conto de fadas, no
que diz respeito à estranha relação entre homens e meninas, às bonecas e ao
quarto de Snezana, à chacina na escola do pequeno Vassilis, onde as crianças
alvejadas se transformam em bonecos desfeitos e o sangue que escorre é branco.
Alternado entre o neo-realismo e o surreal, Pink faz-nos perceber a forma como as
nossas actividades banais do dia-a-dia contêm os pensamentos mais fortes e inimagináveis.
Uma bonita homenagem à cadela Rose
(Pink), talvez o sentimento mais linear e de uma vida, que une Vassilis e Voulgaris.
O ser vivo que acolhemos, que nos acompanha incondicionalmente e sem pedir nada
em troca mas que um dia morre.
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