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Uma história contada de dentro para fora

 

O filme integra a secção Competição Internacional do Festival IndieLisboa [ver blogue especial], a decorrer até ao dia 4 de Maio. IC, 30.04.08

 
   
 Cinema  | Drama

Pink

 Alexander Voulgaris, 2007

 

 

Pink: «any of a group of colors reddish in hue, of medium to high lightness, and of low to moderate saturation», é a definição que encontramos num dicionário on-line de fácil acesso.

 

Pink, o filme, pode ser explicado da mesma forma, se trocarmos as cores por personagens que encarnam o medo que por vezes nos impede de realizar os sonhos, se olharmos as variações em emoções inerentes à passagem para a idade adulta. «É um estado de alma», disse Alexander Voulgaris, a 29 de Abril de 2008, ao auditório do Indie que acabava de ver e aplaudir o seu filme. Realizador e mentor absoluto de Vassilis Galis, personagem principal do filme, que criou e ergueu até ao fim, através da representação. «Foi uma atitude um pouco egocêntrica mas achei que devia ser eu a representá-lo porque o filme estava completamente dentro da minha cabeça e achei que só eu é que o ia conseguir figurar», explica.

 

 

 

Vassilis Galis é um rapaz normal que vive as contradições de qualquer fase de crescimento. Atravessa o filme na orbita de todos os personagens, numa espécie de balancé entre o voyeur e figura participante na história. Ora criança ora quase adulto. Entre a infeliz professora primária e Emily, uma mulher escocesa pela qual se apaixonou numa passagem de ano em Berlim. Entre a figura da mãe, que o abandonou ainda criança, e que agora se transformou em papel e desabafos, nas inúmeras cartas que lhe escreve.

 

Vassilis Galis é criança/adulto sempre escreveu livros, compôs música e que, no presente, durante o processo de realização de um documentário sobre novos talentos da música grega, conhece Snezana, a filha de 11 anos de imigrantes ucranianos, o pêndulo que o hipnotiza e com a qual não consegue deixar de passar grande parte do seu tempo. «Não pretendia que ela fosse uma espécie de Lolita, é apenas uma relação ingénua onde ele encontra entendimento para o lado dele que ainda quer ser criança».

 

 

O jovem cineasta grego é sem dúvida adepto da captura de imagens do quotidiano, do ritmo diário, da omnipresença. Através deles, espelha o desalento da nova geração de futuros adultos gregos, a sua ansiedade em relação a si e ao seu futuro. Quando lhe perguntamos quais as suas influências, não restam dúvidas na análise ao seu trabalho: «todo o cinema americano dos anos 70, Kubrick, Polanski e Cronenberg, claro».

 

Pink é claramente um minucioso trabalho pessoal de Voulgaris, que lhe deu a universalidade de um bom mito. A história é muitas vezes memoranda de um sórdido conto de fadas, no que diz respeito à estranha relação entre homens e meninas, às bonecas e ao quarto de Snezana, à chacina na escola do pequeno Vassilis, onde as crianças alvejadas se transformam em bonecos desfeitos e o sangue que escorre é branco. Alternado entre o neo-realismo e o surreal, Pink faz-nos perceber a forma como as nossas actividades banais do dia-a-dia contêm os pensamentos mais fortes e inimagináveis.

 

Uma bonita homenagem à cadela Rose (Pink), talvez o sentimento mais linear e de uma vida, que une Vassilis e Voulgaris. O ser vivo que acolhemos, que nos acompanha incondicionalmente e sem pedir nada em troca mas que um dia morre.

 

 

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