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Primeira aventura em inglês demasiado 'americana'



My Blueberry Nights foi o filme de abertura da edição 2008 do Festival de Cinema Independente de Lisboa, acompanhado diariamente pelo RASCUNHO em rascunhonoindie.wordpress.com [ver blogue especial].

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 Cinema  |

My Blueberry Nights/ O sabor do Amor

 Wong Kar-Wai, 2007

 

 

«Por vezes a distância entre duas pessoas pode ser curta e a distância emocional medir-se em quilómetros». As palavras são de Wong Kar-Wai e descrevem o mote do novo filme do cineasta de Hong Kong, que decidiu aventurar-se na língua inglesa pela primeira vez.

 

A ideia central do filme é simples: as distâncias sentimentais e físicas, a forma como as pessoas dependem umas das outras de forma não assumida ou mesmo inconsciente, a substância do amor, seja ele qual for; mas My Blueberry Nights não consegue superar a barreira do filme medianamente cativante. No enredo, uma jovem nova-iorquina, Elizabeth, sofre um desgosto de amor e decide fazer uma viagem pelos Estados Unidos, onde acaba por conhecer algumas pessoas e viver um pouco das suas invulgares histórias que, de uma forma ou de outra, marcam a sua vida. Uma estrutura bastante simples e com o seu encanto, que apesar de alguns adoçantes não consegue supreender.

 

Em Cannes, no ano passado, falou-se em fracasso. O público (demasiado) expectante decepcionou-se com o trabalho daquele que chegou a arrebatar o prémio de melhor realizador há 10 anos com Happy Together (Felizes Juntos) e gerou polémica com 2046 (Os Segredos do Amor) em 2004. Wong Kar-Wai aventurou-se por caminhos que lhe eram estranhos e não saiu bem sucedido. Uma questão de perspectiva? Nem por isso. My Blueberry Nights é demasiado 'americano’. Totalmente rodado nos EUA, utiliza com fartura os cenários fetiche como confissões na cafetaria do ‘bairro’ (neste caso com um dono jeitoso e solitário que serve café com tarte – de mirtilo, claro está – à heroína carente); o bar com o bêbado ainda mais solitário e que chora garrafas adentro pelo amor perdido; ou a carismática road trip das duas jovens aventureiras a rasgar as planícies áridas do interior dos Estados Unidos ao sabor do vento da liberdade. A isto tudo, junta-se o facto de a actriz principal ser uma estreia em território da sétima arte. Norah Jones, a cantora, não desilude, mas acaba por ficar irremediavelmente ofuscada pelos colegas ‘secundários’ Natalie Portman, Rachel Weisz, David Strathairn e Jude Law.

 

O resultado é ameno. O ritmo acaba por ser previsível, quando algumas imagens poéticas que o realizador consegue induzir pecam pelo excesso de gravidade nos diálogos e pelas metáforas evidentes. Por outro lado, a fotografia, a cargo de Darius Khondji (Delicatessen, 1991) é belíssima, e a realização de Kar-Wai confirma o potencial, com os planos enigmáticos que já lhe são particulares e as sequências em que o cineasta rouba frames à fita e deixa os silêncios ao léu fazer-nos adivinhar o texto sem qualquer guião. Cenas bonitas que se afunilam num beijo esperado que não acrescenta nada mais às distâncias tratadas no filme, do que aquela acentuada entre o mais novo filme de Wong, e um apaixonante Chungking Express (1994), que tem uma história mais densa e ganha por manter-se no registo mais genuíno do autor.


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Comentários

Carlos Marcos
08-06-2008
Durante a sessão em que vi o filme estive grande parte dos 95 minutos só, pelo que me atrevo a dizer que a minha expectativa inicial não seria ideal. Faltava público, mas tornou-se numa rica experiência.
Contudo, talvez pela forma como o filme nos é apresentado,procurei e tentei encontrar nele aquilo que o realizador deveria querer transmitir ao expectator.
A história de facto é simples, mas as pinceladas que nos deixa ao longo da peça são de facto maravilhosas. O amor o que é isso, quem de facto tem a capacidade necessária para o exprimir e em que forma?
Certamente para quem queira e possa ver, o filme está cheio de simbolismo, como as cores (azul, vermelho, amarelo[ a mais ardente das cores], as grandes rectas, os brincos da jogadora (Natalie Portman), as fichas (discos)do polícia que não foi capaz de disparar a pistola...
O filme é para mim acima de tudo, uma grande licção de cinema e certamente que Kar Wai terá querido dizer muito mais do que aquilo que não somos capazes de captar. Será? O tempo o dirá

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