Cinema
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My Blueberry Nights/ O sabor do Amor
Wong Kar-Wai, 2007
«Por vezes a distância entre duas pessoas pode ser curta e a distância
emocional medir-se em quilómetros». As palavras são de Wong Kar-Wai e descrevem
o mote do novo filme do cineasta de Hong Kong, que decidiu aventurar-se na
língua inglesa pela primeira vez.
A ideia central do filme é simples: as
distâncias sentimentais e físicas, a forma como as pessoas dependem umas das
outras de forma não assumida ou mesmo inconsciente, a substância do amor, seja
ele qual for; mas My Blueberry Nights não consegue superar a barreira do filme
medianamente cativante. No enredo, uma jovem nova-iorquina, Elizabeth, sofre um
desgosto de amor e decide fazer uma viagem pelos Estados Unidos, onde acaba por
conhecer algumas pessoas e viver um pouco das suas invulgares histórias que, de uma forma ou de outra, marcam a sua vida. Uma estrutura bastante
simples e com o seu encanto, que apesar de alguns adoçantes não consegue supreender.

Em Cannes, no ano passado, falou-se em fracasso. O público
(demasiado) expectante decepcionou-se com o trabalho daquele que chegou a
arrebatar o prémio de melhor realizador há 10 anos com Happy Together (Felizes
Juntos) e gerou polémica com 2046 (Os Segredos do Amor) em
2004. Wong Kar-Wai aventurou-se por caminhos que lhe eram estranhos e não saiu
bem sucedido. Uma questão de perspectiva? Nem por isso. My Blueberry Nights é demasiado 'americano’. Totalmente rodado nos EUA, utiliza com fartura os
cenários fetiche como confissões na cafetaria do ‘bairro’ (neste caso com um
dono jeitoso e solitário que serve café com tarte – de mirtilo, claro está – à heroína
carente); o bar com o bêbado ainda mais solitário e que chora garrafas
adentro pelo amor perdido; ou a carismática road trip das duas jovens
aventureiras a rasgar as planícies áridas do interior dos Estados Unidos ao
sabor do vento da liberdade. A isto tudo, junta-se o facto de a actriz principal ser
uma estreia em território da sétima arte. Norah Jones, a cantora, não desilude, mas acaba por ficar irremediavelmente ofuscada pelos colegas ‘secundários’
Natalie Portman, Rachel Weisz, David Strathairn e Jude Law.

O resultado é ameno.
O ritmo acaba por ser previsível, quando algumas imagens poéticas que o
realizador consegue induzir pecam pelo excesso de gravidade nos diálogos
e pelas metáforas evidentes. Por outro lado, a fotografia, a cargo de Darius Khondji (Delicatessen,
1991) é belíssima, e a realização de Kar-Wai confirma o potencial, com os
planos enigmáticos que já lhe são particulares e as sequências em que o cineasta rouba frames à fita e deixa os
silêncios ao léu fazer-nos adivinhar o texto sem qualquer guião. Cenas bonitas que se afunilam num beijo esperado que não
acrescenta nada mais às distâncias tratadas no filme, do que aquela acentuada entre
o mais novo filme de Wong, e um apaixonante Chungking Express (1994), que tem uma história mais densa e ganha por manter-se no
registo mais genuíno do autor.
Sítio Oficial | IMDb
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