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 Literatura  | Novela

Os Três Seios de Novélia

 Manuel da Silva Ramos, 1969

 

 

Antes da glória fugidia, antes da televisão (e da Internet, já agora: contosparaajuventude.blogspot.com), antes mesmo do exílio, muito antes, suponho, do Anão de Arcozelo, Manuel da Silva Ramos era um jovem de 21 anos, que escreveu Os Três Seios de Novélia, vencedor – ex aequo com Marta de Lima – do Prémio de Novelística Almeida Garrett, em 1968. No ano seguinte, àquela obra viria a editora (tristemente finada Inova) a juntar mais dois textos do autor – Um Longo Nascimento e A Respiração –, agrupados sob o título daquela primeira novela. Será, é claro, defensável a cisão, embora me pareça, ainda assim, algo estranha (por inútil que isso seja, quase a quarenta anos de distância), uma vez que a edição do livro reportava ao prémio que galardoou a primeira obra, não as restantes. Parece-me que falar, aqui, de romance, como se faz nos textos introdutórios da badana (à parte esse facto, francamente bons: especialmente, para os padrões actuais…), é francamente exorbitar na apreciação de um texto que não ascende às cinquenta páginas. Por mais que sejamos modernos, e as categorias do género são, bem sei, instáveis, não vejo aqui mais do que um conjunto de três breves novelas: construídas com base numa narratividade pulverizada – «Novélia e eu passamos todos os dias à mesma hora na mesma rua da mesma cidade. Ela sobe. Os seios saindo junto dos botões: duas horas.» (p.12) –, de teor digressivo – «Sobressaltas-te. Queimas-te. E coras. As tuas mãos correm pelo tempo da mesa à procura de um ponto onde as fixarem. Inútil. O ponto é imaginário. Lírico apenas. As mãos e a sua ginástica estrangeira. Os dedos que fabricam o fogo. Penso que pode ser Novembro.» – (p.16), que cruza vozes e planos – «O nascimento da república. O meu avô está lá. De pé ao cimo da avenida. Em Trieste, ao mesmo tempo, sem nada saber, James Joyce escreve “Dubliners”, num pequeno café, cuja primeira edição há-de ser queimada por um desconhecido.» (p.25) –, com investimento, por vezes assinalável, na palavra, numa aproximação, em certos pontos conseguida, ao que habitualmente conhecemos por poesia – «Suplementares depois do fogo. Lado a lado. Já não um número formado por dois algarismos de terra.» (p.32)

 

Os Três Seios de Novélia tem tudo o que é normal no livro de um jovem autor: as alusões – «Só agora reparo que pintaste as unhas de amarelo. (Dormiste alguma vez com o Van Gogh?)» (p.17) –, nem sempre bem incrustadas, nem sempre suficientemente fortes para que o texto não enferme de afectação, em certos trechos menos felizes, algo próprio de quem pouco pôde ter visto; o desejo de ser mordaz, complexo, inesperado – «No guiador levo um embrulho antigo: a minha cabeça. Não há vento.» (p.31) Mas também o que não é tão comum: um poder de invenção, de criação verbal pouco vulgares – «Aqui fica a tua fotografia porque não há palavras que libertem o teu corpo. Além disso é a primeira vez que tu leitor poderás construir uma imagem habitável das mulheres que correm nos romances.» (p.11), alguma segurança na abordagem do outro «– Gosta de histórias verídicas? Dizes que sim com a cabeça, naquele gesto económico que pedala pelos anos com terror e reverência. – Então vou-lhe contar uma história falsa.» (p.22), a acumulação, em certos passos interessante, de planos e perspectivas – «– Quem era esse homem? – Era o meu pai. Era Deus. Agarras-te subitamente ao meu braço esquerdo com uma força matemática que não transige aos compêndios.» (p.23)

 

Creio que, dos três textos aqui reunidos, o que dá nome ao livro é o mais conseguido. Narra, de forma entrecortada, a aproximação do narrador à fugaz Novélia, cujo estatuto, perante a entidade narradora, percorre vários estágios, numa circulação em que a jovem oscila entre mero fantasma da sua imaginação e a companhia que define os seus dias e detona as suas elaborações narradas e líricas. Como um sonho, como um fruto do desejo, como um tema musical, ou poético, Novélia deixará, por fim, de ser.

 

Um Longo Nascimento encena, como se depreende no título, a génese da entidade criadora. Creio, no entanto, que a tentativa não surte efeitos tão interessantes como certos passos da novela epónima. Trata-se de um conjunto de pequenas narrativas de teor divagante, que se fortificam e se tornam mais interessantes, julgo, a partir do momento em que as suas elocubrações encaminham o sujeito narrador para o café. Cenário mais usado que os dias, o autor consegue dar-lhe um impulso interessante – «O café tem vida. Ou eu não estivesse aqui e as minhas veias não fossem as do café.» (p.67)

 

A Respiração constitui algo como um calendário emocional, em que, mês a mês, M.S.R, ou um dos seus adjuvantes diegéticos, percorre lugares como a latrina, perante cujas paredes repletas alguém pergunta «Onde se poderá escrever agora?» Também aqui, uma mulher que entrelaça ficção e sonho, real e mito: Ângela, desta vez. O seu lirismo parece-me, neste derradeiro texto, menos conseguido, ou as peças da desolação verbal menos bem cindidas, ou dispostas de um modo que não permite a erupção verbal mais conseguida do primeiro registo. Quase a culminar a breve peça, um «Sermão de Santo António aos Astronautas», uma curiosa paródia ao texto de Vieira, que todos os jovens conhecem dos bancos da escola.

 
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