Música
| EP
The Guys From The Caravan
The Guys From The Caravan, 2007
Alterar isto daqui para ali. Uma vírgula: falhaste, homem!,
não vês? Leva-me o relatório ao gabinete: quero estudo detalhado sobre a
produtividade da gramática na empresa; quero todos os pontos analisados: o
assédio constante ao i, a insolência da interrogação, o pasmo da exclamação e a
petulância de pequeno burguês do ponto final. Sem desculpas: quero chegar a
casa a horas de jejuar o deus da minha mulher, sacudir o pó ao gato e fazer
conta que me importa o puto: querida, o trabalho não pára – mais um relatório
hoje, é a crise, não há folga; levas o lixo à porta?, sim, sei-te cansada, um
dia isto acaba, mudamos para uma casa melhor, mais espaço para o miúdo, mais
ar, vais ver, tu com ajuda para a ciência doméstica… bolas!, esqueci os
balancetes no escritório, vou lá voltar, não esperes por mim, vai descansar, amo-te. Claro que me lembro da bebedeira que apanhei ontem: ofuscou-me a alvorada!
Dê-me whisky, vá. Velho, duplo e com uma pedra de água. Isso foi ontem, meu
caro, hoje tenho relatório no escritório – não podem haver esses nos pés, nem bigornas a segurar aço. Venha cá. Sabe, você é negociador
importante de uma multinacional. Reuni consigo ontem lá no escritório. Tratámos
de propostas muito concretas para dar nome à empresa no mercado. Chegámos, veja
bem!, a pôr em cima da mesa uma possível cotação em bolsa para dentro de três,
quatro anos.
Quantas lágrimas lhe caem nas mãos por noite? Parece
compreensivo. Só de limpar os copos à minha frente e fazer pente dos seus
ouvidos ao meu lamurio desalinhado ajuda que nem imagina. Volte a encher, por
favor: o bar está vazio: não posso criar confusão com ninguém hoje. Obrigado.
Minto à minha mulher quase diariamente – sabe, não é? Não é plano simples:
invento relatórios e documentos desnecessários na empresa, que obrigo a malta
mais nova a preparar e redigir para poder reflectir sobre eles depois do
expediente; à noite não está ninguém na empresa – posso bem estar lá a
trabalhar sem estar. Depois, é tudo inconclusivo. Tudo menos estas horas
preciosas aqui, no bar. Fico contente com este whisky a mais. Não amo a minha mulher. Companheira incansável, amiga imprescindível, sim. É
parte de mim, mas não sou livre. Percebe? E o puto, um definhado! Dá-me pena. Dá-me
pena não ter a força de espírito para lhe fazer da poesia da minha juventude um
gelado apetecível. Jogos e mais jogos inconsequentes. Corcunda à primeira
década de vida, óculos graves. Tem dores de cabeça impensáveis – dizem que é o
ar que se está a tornar irrespirável. Não sou um fugitivo, nem dissidente: mas
um grosseiro resignado. Mantenho o Caravana no roteiro para me permitir agarrar
o peito, pensar-me apaixonado. Acreditado no amor e nas cores, na música, na
dança, no brilho dos olhos, na literatura de nuvens brancas, na leve passeata
ao sol da manhã tardia, deixado ao acaso do sono de jardim, dos bilhetes trocados
no comboio com desconhecidos, da simplicidade da vida. Percebe o que lhe digo,
não é? Estamos presos.
Precisamos de uma saída do razoável: mas montamos sempre a
tenda em lama. Não sei se precisamos de deus, mas a mão e a canção são vitais. Não
se podem perder em mentiras encolhidas. Os grilhões são de fogo: assam-nos a
carne sem piedade nem oportunidade. Vê os noticiários – sabe o mundo, não é? Precisamos
de um enfarte que ensaie um ponto de viragem. Digo-lhe que os 20 minutos que aqui
passo e as quatro rodadas de whisky me fazem a vida. Voltarei sempre aqui
cantar meia dúzia de ideias e estórias consigo. Ainda espero a noite em que
esquecerei a chave: até amanhã, meu caro.
Declaração de interesse: este EP está editado com o selo da Rasarte, netlabel dirigida pelos
responsáveis do Rascunho, do qual depende directamente.
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