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A história de como o mundo veio a ser o que é, contada por um gorila

 
   
 Literatura  |

Ismael

 Daniel Quinn, 1992

 

 

Hoje em dia é difícil encontrar uma boa obra, de cunho espiritual, que nos ajude a reflectir sobre a condição humana. A moda dos livros místicos pegou. É só olhar para os escaparates das livrarias ou para os top’s e reparar que este tipo de literatura (?) tem cada vez adeptos entre nós, seja porque vivemos numa sociedade de deprimidos, seja porque são fáceis de ler e nos prometem, ainda que por breves instantes, uma felicidade ilusória, seja porque são escritos por 'pessoas famosas'. Um escape, dizem alguns, um pesadelo, dizem outros.


Ismael não pertence definitivamente à categoria de livros espirituais bacocos de trazer por algibeira. Assente em dados arqueológicos e antropológicos, oferece-nos um novo olhar sobre o lugar do homem no mundo, examinando o nosso passado, presente e futuro. Ismael ajuda-nos a quebrar os falsos estereótipos e preconceitos que fomos absorvendo inconscientemente desde a nascença.

 

O livro, escrito na primeira pessoa, começa com o sobressalto do autor ao encontrar um anúncio estranho no jornal: «PROFESSOR PROCURA ALUNO. Deve ter um desejo fervoroso de salvar o mundo. Candidatar-se pessoalmente». Curioso, ele responde e vai ter com o professor. Qual não é a sua surpresa ao verificar que o professor é um gorila. Ismael começa a contar a história da sua vida, fala-lhe dos anos de cativeiro e como posteriormente desenvolveu a sua inteligência. E assim começa a viagem do aluno pela verdadeira história do homem e da sua relação com o mundo.

 

"E ensinas o quê?"
Ismael seleccionou um ramo novo da pilha à sua direita, examinou-o por um momento e começou a mordiscá-lo, olhando-me languidamente. Por fim, respondeu: "Com base na minha história, que matéria dirias estar eu mais qualificado para ensinar?"
Pestanejei e disse-lhe que não sabia.
"Sabes, é claro. A matéria que ensino é: cativeiro".
"Cativeiro".
"Exacto".
Fiquei calado por um minuto, dizendo então: "Estou a tentar imaginar o que tem isto a ver com salvar o mundo".
Ismael pensou um pouco. "Dentre as pessoas da tua cultura, quais são as que querem destruir o mundo?"
"Quais são as que querem destruir o mundo? Tanto quanto sei, ninguém quer especificamente destruir o mundo".
"E no entanto destruí-lo, cada um de vós. Cada um de vós contribui diariamente para a destruição do mundo".
"É verdade, sim".
"E não parais porquê?"
Encolhi os ombros. "Francamente, não sabemos como".
"Sois cativos de um sistema civilizacional que mais ou menos vos compele a prosseguirem com a destruição do mundo de forma a continuarem a viver".
"É o que parece, sim".
"Sois portanto cativos — e fizestes do próprio mundo um cativo. É isso que está em jogo, não é? — o vosso cativeiro e o cativeiro do mundo".
"É verdade, sim. Só que nunca o pensara desta maneira".
"A teu modo, tu mesmo és um cativo não és?"
"Como assim?"
Ismael sorriu, revelando uma grande parede de dentes brancos como mármore. Até então eu não o sabia capaz de sorrir.
"Tenho a impressão de ser um cativo, mas não sei explicar por que motivo tenho eu tal impressão," disse eu.
"Faz alguns anos — à época devias ser tu criança, talvez não estejas recordado —, muitos jovens deste país tiveram a mesma impressão. Fizeram um esforço ingénuo e desorganizado para escaparem do cativeiro, mas acabaram por fracassar, por não terem sido capazes de encontrar as grades da jaula. Se não descobrirmos o que nos está a prender, a vontade de sair em breve se torna confusa e ineficaz".
"Foi essa a sensação que tive, sim"
Ismael assentiu.
"Mas, insisto, como está isto relacionado com a salvação do mundo?"
"O mundo não sobreviverá por muito mais tempo como cativo da humanidade. Carece de explicação, isto?"
"Não. Pelo menos para mim, não".
"Acho que dentre vós muitos existem que gostariam de libertar o mundo do seu cativeiro".
"Concordo".
"O que é que os impede de o fazer?"
"Não sei".
"Eis o que os impede: São incapazes de encontrar as grades da jaula".

 

A verdade é uma: o homem é a criatura para quem tudo o resto foi criado. O mundo gira à sua volta. A água existe para o saciar, os animais para lhe darem alimento, a terra para plantar. Recebe e usa. Não dá ou sequer respeita as outras formas de vida. «O mundo foi feito para o homem, e o homem foi feito para governá-lo». Esta é uma das primeiras ideias-chave do livro. A este ritmo, se continuarmos a destruir o mundo, rapidamente deixará de haver mundo e homem. A necessidade de Ismael ser um animal é óbvia: a possibilidade de criticar a sociedade humana de fora, sem cair em falsas hipocrisias.


É impossível falar nesta crítica da multiplicidade de ideias que o livro contém. Os dados vão surgindo encadeados, num longo raciocínio que exige uma leitura atenta e pausada.

 

Ao abrir Ismael reparo são poucas as frases que escaparam ao sublinhar incisivo do lápis. Mesmo depois de fechado, Ismael continua a exigir reflexão. É que depois de termos acesso a determinados factos e dados sobre a nossa cultura é impossível continuar a ver o mundo com os mesmos olhos, ignorar ou sequer esquecer. Não dá para voltar atrás, fingir que não se sabe de nada e continuar o caminho em direcção à destruição total.


Ismael não propõe uma solução infalível para os problemas globais. Caso contrário, já a teríamos usado. Mas abre portas de vontades, pensamentos e acções. Retira as lentes que a Mãe Cultura colocou e ensina a ver nitidamente.


Em torno deste livro criaram-se autênticas comunidades. Há sites, chats e forúns dedicados a Ismael. A nota de curiosidade, o filme Instinto, com o Anthony Hopkins teve por inspiração este livro.

 

Daniel Quinn nasceu em 1935, em Omaha (Nebraska), e estudou na Universidade de Viena de Áustria e na Universidade Loyola de Chicago. Em 1975 abandonou a carreira de editor para tornar-se um escritor free-lance. Ismael começou a ser escrito em 1977, seguiram-se seis outras versões, até chegar à final, em 1992, quando ganhou o Turner Fellowship Award, destinado a obras de ficção «oferecendo soluções criativas e positivas para problemas globais». Ismael é o primeiro livro de uma trilogia que inclui A História de B (1996) e My Ishmael (1997). A edição pertence à Via Óptima, uma editora diferente das habituais, que sugere «livros para os insaciavelmente curiosos».

 

 

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Comentários

Janos
09-09-2008
Assistam a uma entrevista legendada com Daniel Quinn falando sobre a fome mundial:
http://br.youtube.com/watch?v=p4Kp0HK2wp4

No meu site há também fóruns de discussão em português sobre Quinn

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Dica:09-02-2010
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