Cinema
| Curta-metragem
Tolya
Rodeon Brodsky, 2007
Como se transmite o amor, a uma distância de milhares de quilómetros? Não vale responder falando porque Tolya não podia.
Não há visão, não há tacto, não há olfacto, não há palavra… Outra variável: como se transmite o amor a uma distância de milhares de quilómetros, sem que a senhora chore de saudade?
Em 9’30’’ Rodeon Brodsky conta a história de Tolya, um bielorusso que emigrou para Israel para trabalhar na construção civil. De olho azul atento e do alto do seu bigode farfalhudo, Tolya conta orgulhoso que foi ele quem construiu as mais altas torres da cidade.
Era ele que erguia casas Onde antes só havia chão. Como um pássaro sem asas Ele subia com as asas Que lhe brotavam da mão. Mas tudo desconhecia De sua grande missão: Não sabia por exemplo Que a casa de um homem é um templo Um templo sem religião Como tampouco sabia Que a casa que ele fazia Sendo a sua liberdade Era a sua escravidão. ¹
O caixote pré-fabricado onde os trabalhadores vivem acorda de manhã com a telefonia a anunciar o Dia Internacional da Mulher. À vez, os homens atravessaram o caminho de terra batida até ao telefone público para telefonarem às suas mulheres e desejar feliz dia. Tolya também quer, mas não pode. Acordou sem dentes. Caíram de podres, só sobraram os de ouro. Mesmo assim telefona: «Natashika, brl brlbrl strini stroni». A mulher não percebe nada. Responde com um «Tolya, és tu?»

Não há visão, não há tacto, não há olfacto, não há palavra… mas há amor, há intimidade, há companheirismo de anos que Tolya aproveita. E há som… Tolya descobriu a forma ideal de dizer à sua Natashika que a ama sem precisar de falar.
¹ excerto de O Operário em Construção, de Vinicius de Moraes
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