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 13.10.2009 | Música | Entrevista

«Gostamos de pessoas e de paredes que estejam lá por nossa causa»

 

Preferem o público rock ao erudito mas preferem-no… sentado. Os La La La Ressonance lançam esta semana Outdoor, segundo disco que pode agradar ambos os públicos. É simultaneamente musculado e contemplativo.

 

São do rock, mas daquele ao qual nem uma octogenária proveniente da mais tranquila das aldeias ousaria de chamar barulho. A Casa da Música e o CCB já os aplaudiram e cita-se o conceituado escritor valter hugo mãe para os elogiar em press release. André Simão e Gil Teixeira são dois dos seis elementos de mais uma banda – «mais pop do que muitas bandas pop» – de Barcelos, cidade à qual o título de capital do novo rock lhes soa «exagerado». Foi daí que partiram, para numa tarde de Outono veraneante falarem com o RASCUNHO, na cidade onde se o galo tivesse ressuscitado «se calhar ninguém ligava».

 

Começo por um cenário hipotético. Imaginem que têm dois concertos marcados para o mesmo dia, à mesma hora e com o mesmo cachet. Um é numa sala para público erudito e na outra sala, à vossa espera, está um público mais jovem e mais inclinado para a música rock. Em que sala é que prefeririam tocar?

Gil – Eu sou suspeito, mas venha o rock. Já são muitos anos a movermo-nos no mundo erudito e confesso que, uma das coisas que mais me irrita neste meio, é mesmo a contenção que as pessoas institucionalizaram. Esta contenção até acaba por ser um bocado estranha porque, se formos ver, antigamente não era assim. As pessoas podiam estar numa ópera, levar comida para lá e respondiam com entusiasmo ao que acontecia no palco. Nas galerias da Ópera de Paris, chegava a haver conflitos e porrada. Hoje em dia, não sei porquê, instituiu-se esse controlo. Não se pode tossir, não se pode espirrar, as palmas só vêm no fim e nunca a meio de uma canção, e eu sempre senti falta daquela espontaneidade do público rock.

 

O rock que os La La La Ressonance praticam também resulta apelativo para o público jazz. Este género, apesar de também se englobar, não é necessariamente erudito. O público jazz é diferente?

G – O público jazz também é diferente. Por vezes, falo com os meus colegas do curso de jazz no Porto, e eles também ficam muito chateados por, a partir de certa altura, parece que se assumiu que um concerto desse género é para se estar a conversar para o lado com os amigos, enquanto uns tipos estão ali a improvisar e a tripar. No rock, não. O rock mantém aquelas pessoas que se deslocam pela música, pelo concerto, no qual dão o seu feedback em tempo real. Por estes aspectos, eu apesar de ter uma formação e de trabalhar no campo da música erudita, eu não trocava o público rock por nada.

 

André – Eu se pudesse escolher, escolhia um público rock sentado [risos do Gil:«Acho que estás a ficar velho»]. Ao vivo, quando estou a tocar, gosto de sentir a atenção das pessoas à música. Muitas vezes, quando estás a fazer um concerto, uma coisa que aprendi a não gostar foi, precisamente, tanto como músico como espectador, daquela espécie de público random muito comum nos festivais. Para estes, se interessa a banda, é para curtir. Se não interessa a banda, é para conversar, para fumar um charro ou para tocar uns batuques. Essa indiferença, ao que se está a passar no palco, é uma coisa que me perturba como espectador e como músico e, às vezes, quando estou a tocar e vejo uma plateia sentada e a olhar, considero isso gratificante. Não quer dizer que também não goste de sentir aquela explosão do público quando acabas de tocar um tema ou assim.

 

Mas vocês com a vossa banda anterior [The Antonishing Urbana Fall], tiveram oportunidade de tocar em festivais como Paredes de Coura ou Vilar de Mouros. Enquanto La La La Ressonance como enquadrariam um convite semelhante?

G – Dos festivais desse género, acho que só não tocámos no Sudoeste. Actualmente, se fossemos convidados, provavelmente iríamos recusar. Aí sim, estou com o André. Há pouco balanceaste público rock e erudito mas, se for num festival, é diferente. Não é público para um espectáculo dos La La La Ressonance, nem é um contexto que me agrade especialmente.

 

Isso deve-se a uma preferência por tocar entre paredes ou não querem ter a tarefa de conquistar o público?

G – Queremos conquistar o público que não nos conheça, mas que vá para o concerto empenhado em vê-lo e não esteja apenas de passagem a caminho da barraquinha de cervejas que fica logo a seguir ao palco. Gostamos de paredes e pessoas que estejam lá por nossa causa. É completamente diferente.

 

Dessa forma, e tendo em conta a sonoridade que praticam, não acham que vão acabar por alimentar uma imagem mais próxima do circuito jazz do que do rock?

A – Nunca fizemos questão, nem nos interessou propriamente, trabalharmos nas franjas mais marginais do jazz. Olhando para trás, sempre estivemos mais perto de um circuito ligado ao rock e das bandas e não tão próximos do circuito do jazz. Ainda que já tenhamos feito coisas que nos remetam para contextos mais próximos do jazz do que do rock. Exceptuando momentos esporádicos, nenhum de nós tem uma relação assim tão forte com o jazz, nem como ouvinte, nem como praticante. O nosso crescimento como pessoas e como músicos não passou assim tanto por aí. Há na nossa construção de canções, uma própria negação do jazz como aquele espaço do solo, que no nosso espaço não existe, e aquele tipo de expressões e maneirismos que no nosso caso não existem.

Identificamo-nos com uma forma de estar na música muito mais próxima do rock. O que mais nos interessa na estrutura de uma canção, é baralhar e dar outra vez, que é uma coisa que no jazz acontece precisamente ao contrário, quando tens estruturas A-B-A-B-solas tu-solo eu-A-B-A-B-fim. Para mim, isto é profundamente interessante na maior parte do jazz que se faz, só que o jazz não é só isto. Temos muitas provas, até em Portugal, como o caso do próprio Carlos Bica.

 

G – Eu ouço muitos mais pormenores jazzisticos no primeiro disco do que neste. Este tem uma energia, assumidamente, muito mais rock e, ao mesmo tempo, uma complexidade mais erudita com a inclusão do quarteto de saxofonoes. De uma forma estranha, tirando um ou outro momento de improvisação que continua a soar a jazz, eu diria que este disco é, quanto a mim, menos jazzistico do que o anterior. Em termos finais, achamos bastante curioso que, só pelo facto de não termos ninguém a cantar, que isso já nos afasta da canção. Mas até digo mais: nós somos mais pop do que muitos grupos pop. Na forma, na estrutura do tema e na própria duração dos temas. Temos refrões e melodias que ficam, só que não são cantadas, não há letra. Em termos de estrutura e duração, diria que estamos muito mais perto da pop do que do jazz.

 

Acabaram de dissecar grande parte da estrutura dos vossos temas. Quais são as principais diferenças entre Outdoor e Palisade, o disco anterior?

A – Para nós é sempre difícil falarmos das diferenças porque conhecemos o caminho de A a B. O que aconteceu no primeiro disco foi uma surpresa. Começámos a compor e pensámos que não nos reconhecíamos naquilo. Mudámos de nome e houve ali uma metamorfose estranhíssima que foi difícil de gerir e, entretanto, isso aconteceu. Quando começámos a tocar e a fazer concertos, sentimos que havíamos criado um registo tão hermético, tão pessoal e abstracto que era difícil falarmos a nossa língua e termos um público que a possa perceber, mesmo para um público que seja conhecedor do mundo musical. Sentíamos que ao concerto faltavam dinâmicas em termos da intensidade e de pressão que nos ajudasse a criar um espectáculo com mais impacto e com mais dinâmicas. Não necessariamente aquela coisa de termos um reportório mais suave ou mais rock. Não é isso que queremos. É sentirmos que a intensidade dramática de um espectáculo sairia favorecida se começássemos a construir canções mais directas, com mais pressão e mais musculadas. O Outdoor começou assim.

 

Então a principal diferença é o cariz tempestuoso das canções?

A – Não só. Quando chegámos ao fim de um processo onde já tínhamos sete ou oito temas nesse registo e que estão no disco, sentimos uma necessidade de ir buscar alguma da contenção e austeridade do primeiro disco. Conseguimo-lo com a introdução do quarteto de saxofones [Quad Quartet]. Compusemos temas para eles. Eles colaboram no disco como intérpretes. Leram o que escrevemos pensando neles como um quarteto de música erudita que são e introduzimos aí alguma dessa abstracção e contemplação que o nosso primeiro disco tem. Também conseguimos arranjar algum espaço para incluirmos algumas das características nos outros temas. Desta maneira, não temos oito temas de uma banda de rock instrumental com tendência ao jazz e três temas saxofone. Era preciso criar ali um encontro entre as duas possibilidades e acho que é o que este disco representa.

 

Porquê limitar o número de exemplares do Outdoor a 500? Pensam que é o número de discos que os La La La Ressonance conseguem vender?

G – Tendo em conta como as coisas funcionam actualmente, não é um número irrealista. Hoje em dia, vender 500 discos de La La La Ressonance, deixar-me-ia satisfeito.

 

A – As regras do jogo poderão mudar de tal maneira que, daqui a um ano ou dois, pode ser que já tenha terminado a era do CD. Este pode vir a ser último dos La La La Ressonance.

 

G – Devemos pensar de outra forma: só há 500 CD. Quem realmente quiser ter esse objecto, vai ter que se apressar, vai ter que comprar. De qualquer forma, a música vai continuar a ser acessível a outros formatos. Mesmo esse aspecto de quase haver um requiem pelo CD, se encarares como uma pequena homenagem, ainda antes da morte mas já a pensar que o cisne está quase a morrer, acho que é uma homenagem muito bonita. São só 500, quem ficar com ele, fica com um disco que provavelmente não iremos reeditar e com um álbum do tempo em que ainda havia CD (risos).

 

Mas, dessa forma, não estão a trabalhar apenas para aqueles que já vos conhecem? Com o, agora na moda, download legal não poderiam chegar a um número muito maior de pessoas?

A – Como qualquer banda ou qualquer artista de outra área, interessa-nos chegar ao maior número de pessoas possível. A ideia de criar um objecto estanque, numerado e limitado, é uma forma, da nossa parte, de recompensar aqueles que se interessam pela nossa música. Por outro lado, não acho propriamente justo, a questão do download gratuito e disponibilizar um produto online indiscriminadamente por duas razões: uma porque o envolvimento que nós depositámos na construção do disco é para lá do razoável e, depois, quem se interessa pelo disco e pelo nosso trabalho, também merece ter esse objecto que pode guardar. Hoje em dia, pegas num CD de uma banda que achas interessante e gostas de ter, ripas e passas para o Emule. Não vais andar com ele para o trabalho porque já não há discmans. O disco lá ganhará asas para lá do número de exemplares. Mas estes são os últimos 500 que foram feitos. No fundo, nem tão ao extremo nem tão assumido, é uma edição desse género.

 

G – Convém não esquecer que estamos online no Facebook, MySpace e temos site oficial e conta no YouTube. O disco vai sempre aparecer online seja colocado pela própria banda ou por outra pessoa. Não vale a pena estarmos a negar, é uma inevitabilidade. O que é importante é que haja sempre uma alternativa. Há pessoas que têm o cuidado especial de querer comprar o disco porque gostam da capa ou porque querem ter esse objecto na discoteca lá de casa. Acho que, sobretudo essas pessoas, não podem ser desconsideradas. Tem que haver respeito, sobretudo para não haver exclusividade. A Internet não inviabiliza o formato físico. De certa forma, só estás a providenciar aquilo que as pessoas merecem ter.

 

 

Já disseram que este pode ser o vosso último disco em formato CD. O escritor valter hugo mãe não se coíbe na hora de vos conceder elogios e há cada vez mais maneiras de se vender a música. Um pouco à imagem do Nick Cave [lançou recentemente The Death Of Bunny Munro, um livro com banda sonora produzida pelo próprio], será possível termos um livro de valter hugo mãe com a banda sonora de La La La Ressonance?

A – Nunca surgiu essa possibilidade. Mas é assim, há sempre uma vertigem, uma solução histórica para nós, que é colaborarmos com outras pessoas e trabalhar a partir de algum ponto. Aliás, quando começámos com os La La La Ressonance, quase prometemos a nós próprios que haveríamos de ser cada vez mais, e inevitavelmente, músicos e só músicos, e deixarmo-nos disso. Essa promessa que fizemos, quebramo-la todos os dias. A cada ciclo que passa, nós metemo-nos noutro e continuamos a fazer isso. Consideramos muito interessante partir de um ponto para compor. Sentarmo-nos para compor do vazio é mais difícil do que teres um alfinete a picar-te a dizer-te vai por aí. Isso seria uma hipótese interessante, sei lá. Essa como tantas outras que já abraçámos.

 

G – Essa de musicar um livro, por acaso, nunca fizemos. Abriste a caixa de Pandora. valter diz qualquer coisa [risos].

 

Para terminar, uma pergunta que tem a ver com a geografia da banda. Barcelos é a capital do novo rock português? Para além dos La La Ressonance, é a cidade dos Green Machine e de projectos emergentes como os Black Bombaim ou os The Glockenwise…

G – Barcelos tem uma concentração simpática de bandas a tocar, mas daí a ser a capital do rock, acho um bocado exagerado. É o tal fenómeno que, às vezes, despertam estas pequenas cidades deslocadas dos centros habituais. Quando há coisas fora dos meios habituais acabam por ser mais very typical. Se calhar, não teriam outra atenção se fosse de outra forma. Se fosse o Galo de Lisboa, se calhar ninguém ligava, não é? [risos]

 

A – Acaba por ser como o Gil disse. O que existe é uma atenção especial por aquilo ser uma parvónia e as pessoas acabam por perguntar o que se passará ali. Agora, não é uma coisa que me surpreenda muito. Acho que isso poderia acontecer em Paços de Ferreira, em Lousada ou qualquer outra cidade do género. Não há nada de especial naquela cidade que justifique essa possibilidade. É uma coincidência feliz, até porque não há grandes sinergias entre as bandas. As pessoas conhecem-se apenas. Por exemplo, nós ensaiamos na mesma sala que os Glockenwise. Temos um estúdio e eles têm ensaiado lá, mas não sei se eles alguma vez viram um concerto nosso. Por acaso, até já vi um concerto deles, mas nunca vi os Black Bombaim ao vivo. Não é por não haver curiosidade, mas mais por não haver aquela espécie de uma vontade de gerar alguma onda.

Luís Soares
 
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