«Gostamos de pessoas e de paredes que estejam lá por nossa causa»
Preferem o público rock ao erudito mas preferem-no… sentado. Os La La La Ressonance lançam esta semana Outdoor, segundo disco que pode agradar ambos os públicos. É simultaneamente musculado e contemplativo.
São do rock, mas daquele ao qual nem uma octogenária
proveniente da mais tranquila das aldeias ousaria de chamar barulho. A Casa da
Música e o CCB já os aplaudiram e cita-se o conceituado escritor valter hugo
mãe para os elogiar em press release.
André Simão e Gil Teixeira são dois dos seis elementos de mais uma banda – «mais
pop do que muitas bandas pop» – de Barcelos, cidade à qual o título de capital
do novo rock lhes soa «exagerado». Foi daí que partiram, para numa tarde de
Outono veraneante falarem com o RASCUNHO, na cidade onde se o galo tivesse
ressuscitado «se calhar ninguém ligava».
Começo por um cenário
hipotético.Imaginem que têm dois concertos
marcados para o mesmo dia, à mesma hora e com o mesmo cachet. Um é numa sala
para público erudito e na outra sala, à vossa espera, está um público mais
jovem e mais inclinado para a música rock. Em que sala é que prefeririam tocar?
Gil – Eu sou suspeito, mas venha o rock. Já são muitos anos a movermo-nos no mundo erudito e confesso
que, uma das coisas que mais me irrita neste meio, é mesmo a contenção que as
pessoas institucionalizaram. Esta contenção até acaba por ser um bocado
estranha porque, se formos ver, antigamente não era assim. As pessoas podiam
estar numa ópera, levar comida para lá e respondiam com entusiasmo ao que
acontecia no palco. Nas galerias da Ópera de Paris, chegava a haver conflitos e
porrada. Hoje em dia, não sei porquê, instituiu-se esse controlo. Não se pode
tossir, não se pode espirrar, as palmas só vêm no fim e nunca a meio de uma
canção, e eu sempre senti falta daquela espontaneidade do público rock.
O rock que os La
La La Ressonance praticam também resulta
apelativo para o público jazz. Este género, apesar de também se englobar, não é
necessariamente erudito. O público jazz é diferente?
G – O públicojazz também é diferente. Por vezes, falo com os meus colegas do curso de jazz no Porto, e eles também ficam muito
chateados por, a partir de certa altura, parece que se assumiu que um concerto
desse género é para se estar a conversar para o lado com os amigos, enquanto
uns tipos estão ali a improvisar e a tripar. No rock, não. O rock mantém
aquelas pessoas que se deslocam pela música, pelo concerto, no qual dão o seu feedback em tempo real. Por estes
aspectos, eu apesar de ter uma formação e de trabalhar no campo da música
erudita, eu não trocava o público rock por nada.
André – Eu se pudesse escolher, escolhia um público rock sentado [risos do Gil:«Acho que estás a ficar velho»]. Ao vivo, quando estou a tocar, gosto de
sentir a atenção das pessoas à música. Muitas vezes, quando estás a fazer um
concerto, uma coisa que aprendi a não gostar foi, precisamente, tanto como
músico como espectador, daquela espécie de público random muito comum nos festivais. Para estes, se interessa a banda,
é para curtir. Se não interessa a banda, é para conversar, para fumar um charro
ou para tocar uns batuques. Essa indiferença, ao que se está a passar no palco,
é uma coisa que me perturba como espectador e como músico e, às vezes, quando
estou a tocar e vejo uma plateia sentada e a olhar, considero isso gratificante.
Não quer dizer que também não goste de sentir aquela explosão do público quando
acabas de tocar um tema ou assim.
Mas vocês com a vossa
banda anterior [The Antonishing Urbana Fall], tiveram oportunidade de tocar
em festivais como Paredes de Coura ou Vilar de Mouros. Enquanto La
La La Ressonance como enquadrariam um
convite semelhante?
G – Dos festivais desse género, acho que só não tocámos no
Sudoeste. Actualmente, se fossemos convidados, provavelmente iríamos recusar.
Aí sim, estou com o André. Há pouco balanceaste público rock e erudito mas, se for num festival, é diferente. Não é público
para um espectáculo dos La La La
Ressonance, nem é um contexto que me agrade especialmente.
Isso deve-se a uma
preferência por tocar entre paredes ou não querem ter a tarefa de conquistar o
público?
G – Queremos conquistar o público que não nos conheça, mas
que vá para o concerto empenhado em vê-lo e não esteja apenas de passagem a
caminho da barraquinha de cervejas que fica logo a seguir ao palco. Gostamos de
paredes e pessoas que estejam lá por nossa causa. É completamente diferente.
Dessa forma, e tendo
em conta a sonoridade que praticam, não acham que vão acabar por alimentar uma
imagem mais próxima do circuito jazz do
que do rock?
A – Nunca fizemos questão, nem nos interessou propriamente,
trabalharmos nas franjas mais marginais do jazz.
Olhando para trás, sempre estivemos mais perto de um circuito ligado ao rock e das bandas e não tão próximos do
circuito do jazz. Ainda que já
tenhamos feito coisas que nos remetam para contextos mais próximos do jazz do que do rock. Exceptuando momentos esporádicos, nenhum de nós tem uma
relação assim tão forte com o jazz,
nem como ouvinte, nem como praticante. O nosso crescimento como pessoas e como
músicos não passou assim tanto por aí. Há na
nossa construção de canções, uma própria negação do jazz como aquele espaço do solo, que no nosso espaço não existe, e
aquele tipo de expressões e maneirismos que no nosso caso não existem.
Identificamo-nos com uma forma de estar na música muito mais
próxima do rock. O que mais nos interessa na estrutura de uma canção, é
baralhar e dar outra vez, que é uma coisa que no jazz acontece precisamente ao contrário, quando tens estruturas
A-B-A-B-solas tu-solo eu-A-B-A-B-fim. Para mim, isto é profundamente
interessante na maior parte do jazz que se faz, só que o jazz não é só
isto. Temos muitas provas, até em Portugal, como o caso do próprio Carlos Bica.
G – Eu ouço muitos mais pormenores jazzisticos no primeiro disco do que neste. Este tem uma energia,
assumidamente, muito mais rock e, ao
mesmo tempo, uma complexidade mais erudita com a inclusão do quarteto de saxofonoes.
De uma forma estranha, tirando um ou outro momento de improvisação que continua
a soar a jazz, eu diria que este
disco é, quanto a mim, menos jazzistico do que o anterior.Em termos finais, achamos
bastante curioso que, só pelo facto de não termos ninguém a cantar, que isso já
nos afasta da canção. Mas até digo mais: nós somos mais pop do que muitos grupos pop. Na forma, na estrutura do tema e na
própria duração dos temas. Temos refrões e melodias que ficam, só que não são
cantadas, não há letra. Em termos de estrutura e duração, diria que estamos
muito mais perto da pop do que do jazz.
Acabaram de dissecar
grande parte da estrutura dos vossos temas. Quais são as principais diferenças
entre Outdoor e Palisade, o disco anterior?
A – Para nós é sempre difícil falarmos das diferenças porque
conhecemos o caminho de A a B. O que aconteceu no primeiro disco foi uma
surpresa. Começámos a compor e pensámos que não nos reconhecíamos naquilo.
Mudámos de nome e houve ali uma metamorfose estranhíssima que foi difícil de
gerir e, entretanto, isso aconteceu. Quando começámos a tocar e a fazer
concertos, sentimos que havíamos criado um registo tão hermético, tão pessoal e
abstracto que era difícil falarmos a nossa língua e termos um público que a
possa perceber, mesmo para um público que seja conhecedor do mundo musical.
Sentíamos que ao concerto faltavam dinâmicas em termos da intensidade e de
pressão que nos ajudasse a criar um espectáculo com mais impacto e com mais
dinâmicas. Não necessariamente aquela coisa de termos um reportório mais suave
ou mais rock. Não é isso que
queremos. É sentirmos que a intensidade dramática de um espectáculo sairia
favorecida se começássemos a construir canções mais directas, com mais pressão
e mais musculadas. O Outdoor começou
assim.
Então a principal
diferença é o cariz tempestuoso das canções?
A – Não só. Quando chegámos ao fim de um processo onde já
tínhamos sete ou oito temas nesse registo e que estão no disco, sentimos uma
necessidade de ir buscar alguma da contenção e austeridade do primeiro disco. Conseguimo-lo
com a introdução do quarteto de saxofones [Quad Quartet]. Compusemos temas
para eles. Eles colaboram no disco como intérpretes. Leram o que escrevemos
pensando neles como um quarteto de música erudita que são e introduzimos aí
alguma dessa abstracção e contemplação que o nosso primeiro disco tem. Também
conseguimos arranjar algum espaço para incluirmos algumas das características
nos outros temas. Desta maneira, não temos oito temas de uma banda de rock instrumental com tendência ao jazz e três temas saxofone. Era preciso
criar ali um encontro entre as duas possibilidades e acho que é o que este
disco representa.
Porquê limitar o
número de exemplares do Outdoor a
500? Pensam que é o número de discos que os La La La
Ressonance conseguem vender?
G – Tendo em conta como as coisas funcionam actualmente, não
é um número irrealista. Hoje em dia, vender 500 discos de La
La La Ressonance, deixar-me-ia satisfeito.
A – As regras do jogo poderão mudar de tal maneira que, daqui
a um ano ou dois, pode ser que já tenha terminado a era do CD. Este pode vir a
ser último dos La La La
Ressonance.
G – Devemos pensar de outra forma: só há 500 CD. Quem
realmente quiser ter esse objecto, vai ter que se apressar, vai ter que
comprar. De qualquer forma, a música vai continuar a ser acessível a outros
formatos. Mesmo esse aspecto de quase haver um requiem pelo CD, se encarares como uma pequena homenagem, ainda
antes da morte mas já a pensar que o cisne está quase a morrer, acho que é uma
homenagem muito bonita. São só 500, quem ficar com ele, fica com um disco que
provavelmente não iremos reeditar e com um álbum do tempo em que ainda havia
CD (risos).
Mas, dessa forma, não
estão a trabalhar apenas para aqueles que já vos conhecem? Com o, agora na
moda, download legal não poderiam
chegar a um número muito maior de pessoas?
A – Como qualquer banda ou qualquer artista de outra área,
interessa-nos chegar ao maior número de pessoas possível. A ideia de criar um
objecto estanque, numerado e limitado, é uma forma, da nossa parte, de
recompensar aqueles que se interessam pela nossa música. Por outro lado, não
acho propriamente justo, a questão do download gratuito e disponibilizar um produto online indiscriminadamente por duas razões: uma porque o envolvimento que nós
depositámos na construção do disco é para lá do razoável e, depois, quem se interessa pelo disco e pelo nosso trabalho, também merece ter esse
objecto que pode guardar. Hoje em dia, pegas num CD de uma banda que achas
interessante e gostas de ter, ripas e passas para o Emule. Não vais andar com
ele para o trabalho porque já não há discmans.
O disco lá ganhará asas para lá do número de exemplares. Mas estes são os
últimos 500 que foram feitos. No fundo, nem tão ao extremo nem tão assumido, é
uma edição desse género.
G – Convém não esquecer que estamos online no Facebook,
MySpace e temos site oficial e conta no YouTube. O disco vai sempre aparecer
online seja colocado pela própria banda ou por outra pessoa. Não vale a pena
estarmos a negar, é uma inevitabilidade. O que é importante é que haja sempre
uma alternativa. Há pessoas que têm o cuidado especial de querer comprar o
disco porque gostam da capa ou porque querem ter esse objecto na discoteca lá
de casa. Acho que, sobretudo essas pessoas, não podem ser desconsideradas. Tem
que haver respeito, sobretudo para não haver exclusividade. A Internet não
inviabiliza o formato físico. De certa forma, só estás a providenciar aquilo
que as pessoas merecem ter.
Já disseram que este
pode ser o vosso último disco em formato CD.
O escritor valter hugo mãe não se coíbe na hora de vos
conceder elogios e há cada vez mais maneiras de se vender a música. Um pouco à
imagem do Nick Cave [lançou recentemente The
Death Of Bunny Munro, um livro com banda sonora produzida pelo próprio], será
possível termos um livro de valter hugo mãe com a banda sonora de La
La La Ressonance?
A – Nunca surgiu essa possibilidade. Mas é assim, há sempre
uma vertigem, uma solução histórica para nós, que é colaborarmos com outras
pessoas e trabalhar a partir de algum ponto. Aliás, quando começámos com os La
La La Ressonance, quase prometemos
a nós próprios que haveríamos de ser cada vez mais, e inevitavelmente, músicos
e só músicos, e deixarmo-nos disso. Essa promessa que fizemos, quebramo-la
todos os dias. A cada ciclo que passa, nós metemo-nos noutro e continuamos a
fazer isso. Consideramos muito interessante partir de um ponto para compor.
Sentarmo-nos para compor do vazio é mais difícil do que teres um alfinete a
picar-te a dizer-te vai por aí. Isso seria uma hipótese interessante, sei lá.
Essa como tantas outras que já abraçámos.
G – Essa de musicar um livro, por acaso, nunca fizemos.
Abriste a caixa de Pandora. valter diz qualquer coisa [risos].
Para terminar, uma
pergunta que tem a ver com a geografia da banda. Barcelos é a capital do novo
rock português? Para além dos La La
Ressonance, é a cidade dos Green Machine e de projectos
emergentes como os Black Bombaim ou os The Glockenwise…
G – Barcelos tem uma concentração simpática de bandas a
tocar, mas daí a ser a capital do rock, acho um bocado exagerado. É o tal
fenómeno que, às vezes, despertam estas pequenas cidades deslocadas dos centros
habituais. Quando há coisas fora dos meios habituais acabam por ser mais very typical. Se calhar, não teriam
outra atenção se fosse de outra forma. Se fosse o Galo de Lisboa, se calhar
ninguém ligava, não é? [risos]
A – Acaba por ser como o Gil disse. O que
existe é uma atenção especial por aquilo ser uma parvónia e as pessoas acabam
por perguntar o que se passará ali. Agora, não é uma coisa que me surpreenda
muito. Acho que isso poderia acontecer em Paços de Ferreira, em Lousada ou
qualquer outra cidade do género. Não há nada de especial naquela
cidade que justifique essa possibilidade. É uma coincidência feliz,
até porque não há grandes sinergias entre as bandas. As pessoas conhecem-se
apenas. Por exemplo, nós ensaiamos na mesma sala que os Glockenwise. Temos um
estúdio e eles têm ensaiado lá, mas não sei se eles alguma vez viram um
concerto nosso. Por acaso, até já vi um concerto deles, mas nunca vi os Black
Bombaim ao vivo. Não é por não haver curiosidade, mas mais por não haver aquela
espécie de uma vontade de gerar alguma onda.