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 29.03.2009 | Arte & Design | Entrevista

Vida nova para objectos desactualizados

 

Projecto que promove a reciclagem e re-utilização de peças de mobiliário numa abordagem artística, que faz homenagem aos anos 80 e ao kitsch para provocar o sorriso através do olhar crítico e irónico.

 

Bruno Cecílio e Sara Battesti são os responsáveis pela E Viveram Felizes Para Sempre – ele a tempo inteiro e ela em part-time. Ele é licenciado em Ciência Política e começou a carreira profissional na área da moda, de onde transitou para a restauração. Ela tem formação na área das Relações Públicas e Publicidade, e passou pela moda, pela publicidade e pela Bienal de Lisboa – Experimenta Design.


Actualmente, os dois dedicam-se a este novo projecto que promove a reciclagem e re-utilização de peças de mobiliário numa abordagem artística, que faz homenagem aos anos 80 e ao kitsch para provocar o sorriso através do olhar crítico e irónico. O RASCUNHO falou com Sara Battesti, por e-mail, para perceber como se fazem estes finais felizes.

 

Qual o conceito por detrás do vosso projecto?

A E viveram felizes para sempre é uma loja-atelier que personaliza objectos, faz restylings de mobiliário e intervém em ambientes interiores. Em termos estéticos, faz uma homenagem ao kitsch, corrente artística baseada na ornamentação rebuscada que nasceu em Munique em 1860 e que procede de um exagero voluntário e irónico. O nosso trabalho tira partido da velocidade de consumo e apropria-se das imagens descartáveis da cultura urbana, dos objectos rejeitados, da tralha abandonada, de adornos desajeitados e bibelôs obsoletos, para criar. As suas características ou funcionalidades iniciais são descontextualizadas para provocar e ironizar dando um novo simbolismo a cada peça.

Cada peça conta uma história que convida a entrar num mundo imaginário de fantasia, que apela às memórias colectivas numa viagem no tempo. A apropriação e a re-utilização em que se baseia este projecto é, ao fim ao cabo, um ponto de partida para criar uma nova história, alterando a narrativa através de uma nova representação. Por exemplo, a E viveram felizes para sempre cria painéis decorativos a partir de cartazes, imagens de revistas ou postais, que trazem uma nova perspectiva sobre o simbolismo dos ícones que se apropriou.

 

São uma espécie de conselheiros matrimoniais entre os donos e os objectos?

Sim, sobretudo numa das áreas que trabalhamos: o restyling de peças de mobiliário sob encomenda. Isto porque a E viveram felizes para sempre insurge-se contra o crescente número de divórcios precoces entre objectos e os seus proprietários, convidando as pessoas a optar por dar um novo visual a mobiliário que tenham em casa em vez de descartá-lo. Acreditamos que o valor ou património emocional das peças justifica procurar devolver-lhes o poder de sedução, através de transformação e personalização. Nestes casos, agimos como verdadeiros conselheiros matrimoniais, convidando a pessoa, num trabalho conjunto, a encontrar um final feliz para a sua peça. Apesar de uma pessoa deixar de se identificar com uma peça de mobiliário, pode desafiar-nos a experimentar transvestir o objecto. Normalmente, o resultado surpreende pela positiva.


Porquê a associação do nome aos contos de fadas?

«E viveram felizes para sempre…» é uma frase idiomática que apela ao imaginário mais profundo das pessoas e está associado à ideia de final feliz de uma história infantil. Dar um final feliz é também acreditar na continuidade, num prolongar de uma história, em suma, trata-se abrir portas para a sequela. É com essa filosofia que intervimos, pois os objectos que seriam inicialmente abandonados ganham, com a nossa intervenção, segunda vida e adquirem novo papel, bem como renovado estatuto. Alteramos a narrativa dos objectos tal como nos contos de fada em que a história continua.

 

De onde surgiu a ideia para este projecto?

Surgiu de há uns anos atrás, quando herdámos uma série de objectos em que decidimos intervir para os personalizar. Uma forma prática e económica de dar um renovado look às peças com o qual nos identificamos. O resultado foi surpreendente e quando percebemos que as pessoas aderiam, achámos que valeria a pena abraçar o desafio.

 

Qual a vossa principal motivação?

É poder personalizar um objecto ou um espaço, apimentar uma relação que se encontra desgastada devido ao passar dos anos e à monotonia que entretanto se instalou. Por um lado, o nosso trabalho visa revitalizar peças e ambientes para que se mantenham na nossa vida. Por outro, o trabalho nos painéis pretende, num olhar muito pessoal, criar uma nova narrativa através da apropriação de imagens que a dinâmica cultural e política da cidade produz em grande escala.

 

Que materiais utilizam?

Como desenvolvemos diferentes áreas que vão desde criação de painéis ou peças decorativas, até à renovação de peças de mobiliário, utilizamos uma grande variedade de materiais. Podem ser cartazes de rua, postais, bibelôs, bijutaria, têxteis, molduras, imagens de revistas, fotografias antigas, naperons, adereços, entre muitos outros.

 

Têm muitos clientes?

 

A E Viveram felizes para sempre é ainda uma criança, pelo que não se pode dizer que tenha muitos clientes. Temos também consciência que não se trata de um trabalho de produção em série, mas sim um processo criativo que, no caso de encomendas, resulta de um briefing pessoal. Requer tempo, numa primeira fase para a conceptualização e numa segunda para a concretização. Desde do arranque em Fevereiro de 2008, temos vindo a desenvolver vários projectos que nos levaram também a diversificar as abordagens. Começámos com uma exposição na Fábrica Braço de Prata, na Loja-Atelier já realizámos três inaugurações, uma actividade para crianças no Open Day da LX Factory. Em termos de encomendas, criámos diferentes site specifics em duas casas de banho de uma produtora e no Hostel Kitsch, na Praça dos Restauradores [em Lisboa], para além de restylings de candeeiros.

 

As vossas formações de base não têm muito a ver com este projecto. Dedicam-se a ele a tempo inteiro?

Sim, o Bruno tirou uma licenciatura em Ciência Política e eu licenciei-me em Relações Públicas e Publicidade no INP. Hoje em dia os percursos profissionais não são tão lineares, e há que aproveitar o espaço que se criou para a criatividade e o empreendedorismo. Em relação ao tempo que dedicamos à E viveram felizes para sempre, só o Bruno o faz a tempo inteiro. Do meu lado, acaba por ser em part-time. O atelier-loja é um espaço de partilha, aberto a quem quiser vir assistir in loco ao trabalho que lá é desenvolvido (de segunda a sexta-feira, das 11h00 às 19h00).

 

 

Sítio Oficial

Liliana Pacheco
 
etiquetaEtiquetas: E viveram felizes para sempre, Bruno Cecílio, Sara Battesti,  
 
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Comentários (1)

Gravatar Joana Cecilio
05-07-2009
Caro Bruno, pelo nome seremos primos? nO facto é que temos os mesmos interesses e fazemos as mesmas coisas! Gostave de falar co9nsigo sobre isso. o meu email está em cima e o tlf. é o 929 074 974. Gostava que me contactasse! Melhores cumprimentos

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