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 30.04.2008 | Literatura | Tuta-e-meia

Livros ao desbarato desde 1914

 

Em Lisboa multiplicam-se alfarrabistas de visita obrigatória. A velhinha Barateira faz jus ao nome e vende boa literatura a preço baixo. A história d'O Retrato de Dorian Gray por dois euros ou como ir aos saldos das letras todos os dias.

 

Entramos e o som é irrepetivelmente o mesmo: versão gregoriana-pop de umas quaisquer músicas dos 80’s. O cheiro também, a livros. A Livraria Barateira é casa alfarrabista para gente de bolsos leves, gente que goste de livros e de comprá-los com moedas. Não serão precisas muitas, garantimos.

 

Sito no 16 da Rua Nova Trindade Coelho, Lisboa, com o Teatro da Trindade por vizinho, este alfarrabista com história inaugurada em 1914 ainda «existe para fazer jus ao nome». «Pelo menos é o que tento: ter livros bons e baratos», conta ao RASCUNHO Rui Nascimento, proprietário da casa que lhe caiu em mãos vinda de outros andaimes familiares. A Barateira nem sequer começou ali, na Trindade. O parto deu-se umas travessas abaixo, ao Carmo.

 

O avô emprestado de Rui Nascimento (não era pai do seu pai) «toda a vida foi um idealista e decidiu abrir uma livrariazinha pequena». «Ele tinha aquela paixão pelos livros mas era pouco dado a regras. Se lhe dava na gana e não lhe apetecia trabalhar, fechava a porta e ia-se embora», recorda. Foi a avó de Rui – «uma mulher de armas» – que, com a ajuda do filho, fez prosperar o negócio. Anos depois, a Rua Nova da Trindade foi o destino improvável: uma antiga cavalariça senhorial transformava-se em arrumo de livros.

 

Na década de 1960 a Barateira «conheceu os seus tempos áureos». «Não havia ainda muitas casas do género e esta era uma das maiores», prossegue Rui Nascimento, hoje com 62 anos. «O meu pai e a minha avó entregaram-se mesmo ao trabalho. Começaram a comprar, a comprar, e ficaram carregados de livros.» As estantes permanecem repletas de lombadas nesta tarde em que revisitamos o alfarrabista. A meio da conversa, oferecem-lhe livros, querem vender-lhe. Que não, que não está comprador, responde Nascimento. «Agora não se vende grande coisa.» Suspeitávamos.

 

Os tempos estão difíceis para quem vive do que os outros lêem. Mas Rui, detrás do balcão onde repara lombadas e afaga páginas que o tempo corrompeu, vai dizendo que «sempre existiram e sempre vão existir os apaixonados dos livros, mesmo entre a gente nova». «Já se vendeu mais mas também já se vendeu menos. Agora não me dedico aos livros antigos, porque alguns colegas especializaram-se muito nisso. Tento ter um pouco de tudo.» Uma alternativa às livrarias? «Exactamente. Porque tenho livros que as pessoas querem e que já estão esgotados no mercado.» E porque os vende bem baratos, acrescentamos nós.

 

Autores: os grandes estão quase todos lá todos

 

Oscar Wilde, José Régio, Leon Tolstoi, José Saramago, Jorge Amado, Baptista-Bastos, Raul Brandão, Eça, Camilo, Gorki, Dostoiévski, Gomes Ferreira… Podíamos continuar incessantemente a citar de memória. Na Barateira há muita e boa letra cravada em papel que rescende. Das colecções antigas da Europa América à mais recente fornada Mil Folhas, editada pelo jornal Público, o alfarrabista responde aos ensejos dos poucos que se aventuram a adentrar-se por ali. Os preços? Qualquer destes autores a menos de seis euros, garantimos. E alguns a três. E a dois e meio. E a dois.

 

Se a ideia for mesmo a de comprar por uma bagatela, há cestos de livros a 50 cêntimos e por aí em diante. E há filosofia também. E informática, política, linguística, sociologia, psicologia e por aí em diante.

 

O que há, em última análise, nas escarpas da Livraria Barateira, albergue de estantes coloridas e visitantes repetidos, são pilhas de livros órfãos, de histórias por serem descobertas, de páginas a precisar de dedos. Ali, um livro custa menos que um maço de tabaco e compram-se dois volumes dignos pelo preço de um almoço rasca. Emagreçamos, pois, a dieta orgânica e demos de comer ao intelecto de quando em vez. Tomemos nas mãos esse «sonho dirigido» de que fala Jorge Luís Borges (na ilustração) e afloremos da memória a frase de Barthes: «A literatura não permite caminhar, mas permite respirar.». Estamos saciados.

Hélder Beja
 
etiquetaEtiquetas: Livraria Barateira, Rui Nascimento, Europa-América, Mil Folhas, Jorge Luís Borges, Roland Barthes, Oscar Wilde, José Régio, Leon Tolstoi, José Saramago, Jorge Amado, Baptista-Bastos, Raul Brandão, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Máximo Gorki, Fiódor Dostoiévski, José Gomes Ferreira,  
 
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Comentários (3)

Gravatar Estela Bastos
17-12-2009
Procuro um livro "Angola os dias do desespero" de Horacio Caio, gostaria me informassem de tem disponivel, o preço e morada onde pode ser levantado.

Obrigada

Gravatar Carmen Ramos
29-08-2008
Olá, boa tarde:
Gostaria de saber se compram livros. Tenho sobretudo romances, livros policiais e livros de cozinha, todos em bom estado. Podem contactar-me por mail ou por telefone: 919590921. Aguardo o vosso feed-back.
Obrigada pela atenção. Cumprimentos. Carmen Ramos
Gravatar PJB
30-04-2008
hmm acho que tenho aqui uns trocos no bolso...

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